Os documentos estudados no processo de canonização do papa João Paulo II mostram que não houve «qualquer envolvimento pessoal» da sua parte no escândalo de pedofilia que envolveu o Fundador dos Legionários de Cristo, revelou esta terça-feira o Vaticano.

Em conferência de imprensa, monsenhor Slowomir Oder, defensor (postulador) da causa de canonização de João Paulo II, e o padre Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, responderam hoje a acusações de que o papa polaco saberia do escândalo de pedofilia que envolveu o padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e que terá recusado punir o padre.

«O estudo dos documentos pessoais do papa», na sequência de pedidos para permitir uma clarificação deste assunto, demostrou que «não existe qualquer envolvimento pessoal do Santo Padre neste caso», disse Federico Lombardi.

Ainda que João Paulo II tenha, em 2002, condenado a pedofilia nos Estados Unidos, as associações das vítimas de padres e bispos pedófilos são críticas da atitude do papa em relação a este problema.

Acusam João Paulo II de proteger a Igreja face aos escândalos da pedofilia, fechando os olhos à dimensão dos crimes e recusado ir tão longe como o seu sucessor Bento XVI, que pediu perdão às vítimas.

Lamentam nomeadamente o apoio ao padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, que chegou a ser recebido em audiência por João Paulo II, em 2004, quando já acumulava acusações de corrupção e abusos sexuais de crianças.

Marcial Maciel foi afastado em 2006 pelo papa Bento XVI e morreu em 2008, aos 87 anos, na Florida, Estados Unidos.

Questionado sobre os defeitos do papa polaco, Slowomir Oder reconheceu que ele era «sanguíneo e emotivo» e que poderia dar «respostas bruscas e secas» aos seus interlocutores.

Slowomir Oder comentou ainda informações sobre as reservas que o antigo cardeal de Milão Carlo Maria Martini, falecido em 2012 e considerado da ala progressista da Igreja, teria manifestado relativamente ao processo de canonização do papa polaco.

«Não é justo, nem verdadeiro» dizer que o cardeal italiano se opunha à canonização, disse Orger, explicando que o que o cardeal Martini fez foi reconhecer a legitimidade de um debate sobre a oportunidade de tornar santos os papas em geral.

O monsenhor Oder reconheceu, no entanto, que ao longo do processo de canonização «vozes à esquerda da Igreja» se declararam contra tornar santo Karol Wojtyla por causa das suas posições contra os teólogos da libertação.

Os integristas também se manifestaram hostis à abertura de João Paulo II às outras religiões, acrescentou.