O papa João Paulo II «tomou decisões jurídicas» desde 2002 relativas ao escândalo da pedofilia na Igreja, depois de ter convocado para Roma os cardeais norte-americanos, afirmou esta sexta-feira o seu antigo porta-voz, Joaquin Navarro Valls.

O antigo porta-voz respondeu assim às acusações feitas pelas associações de antigas vítimas de padres pedófilos a João Paulo II, suspeito de ter minimizado ou fechado os olhos perante o escândalo e ter procurado sobretudo defender a instituição católica.

O Vaticano convidou o espanhol Navarro Valls a participar numa conferência de imprensa por ser uma das pessoas mais próximas de João Paulo II, a propósito da sua canonização, juntamente com o papa João XXIII, no domingo.

Quando os primeiros casos de pedofilia apareceram nos EUA, relativos a situações de «há 20 ou 30 anos antes», «ninguém compreendia e o papa preocupou-se bastante. A pureza do seu pensamento tornava difícil aceitar tais acontecimentos, mas ele acabou por aceitá-los», afirmou o antigo porta-voz.

O papa João Paulo II «convocou para Roma todos os cardais norte-americanos. Eu estava presente. Era uma discussão muito séria durante a qual casos específicos foram abordados. Ele tomou decisões jurídicas, dando plenos poderes à Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger», explicou o antigo psiquiatra e jornalista do movimento conservador Opus Dei.

Interrogado sobre o caso do fundador dos Legionários de Cristo, o padre Martial Maciel, que levou as associações a acusar o papa polaco de, durante muito tempo, proteger este elemento da Igreja sem acreditar na sua culpa, Navarro Valls respondeu que João Paulo II «foi informado de que um procedimento canónico estava em curso» contra o mexicano.

Este procedimento, recordou, concretizou-se através de um longo inquérito dirigido pelo padre de Malta Charles Scicluna nos EUA, México e Barcelona, junto das suas vítimas.

«Quando morreu, o processo ainda não estava terminado e João Paulo II não chegou a saber o seu resultado», disse Joaquin Navarro Valls.

O antigo porta-voz, cargo que desempenhou durante 22 dos 26 anos de pontificado de João Paulo II, defendeu que uma pessoa que rezava como o papa polaco «estava em contacto direto com Deus e portanto era santo».

No retrato que fez de João Paulo II, realçou como traços dominantes da sua santidade «a oração, o trabalho o sorriso».