O Papa Francisco decidiu substituir o secretário de Estado e número dois do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, cuja gestão da Cúria foi frequentemente contestada, disseram fontes vaticanas citadas esta sexta-feira pela imprensa italiana.

Tarcisio Bertone, de 78 anos, foi desde 1986 o homem de confiança do Papa emérito Bento XVI, antecessor de Francisco.

Numa parte dos documentos confidenciais, divulgados no ano passado pelo Vaticano, no âmbito do escândalo «Vatileaks», este salesiano é criticado por erros de gestão e más escolhas.

O diário Corriere della Sera afirmou que Francisco poderá anunciar, já no sábado, a saída de Bertone e talvez o nome do sucessor no cargo, que poderá tomar posse em meados de outubro.

O cardeal Bertone ficou desagradado com vários acontecimentos que, indiretamente, mancharam ainda mais a sua reputação, como a nomeação, em julho, pelo Papa, de uma perita em comunicação, a católica ítalo-marroquina Francesca Immacolata Chaouqui, de 32 anos.

Chaouqui integrou uma comissão de laicos encarregada de verificar a transparência financeira e administrativa do Vaticano.

O Papa decidiu estas nomeações sem consultar a poderosa Secretaria de Estado do Vaticano, de acordo com a agência noticiosa francesa AFP.

Aparentemente, Chaouqui terá mantido contactos com Gianluigi Nuzzi, o jornalista italiano na origem do escândalo «Vatileaks», e terá divulgado mensagens na rede social Twitter críticas da Cúria, nas quais o cardeal Bertone era qualificado de «personagem corrupta».

O cardeal italiano foi também obrigado a aceitar a demissão do diretor e vice-diretor do Instituto para as Obras Religiosas (IOR, ou banco do Vaticano) Paolo Cipriani e Massimo Tulli, próximos de Bertone, após a detenção, no final de junho, por suspeitas de corrupção, do padre italiano da administração do Vaticano Nunzio Scarano.

Bertone afirma ter sido ele a iniciar a reforma do IOR, antes da eleição do Papa argentino, a 13 de março.

As mesmas fontes disseram que o cardeal Bertone poderá continuar a ser o cardeal camerlengo. O cargo implica que, após a morte de um Papa, o camerlengo assuma a gestão do Vaticano durante o período de Sé Vacante, e também durante as viagens do bispo de Roma.

Dois italianos são apontados como possíveis sucessores de Bertone: o núncio apostólico na Venezuela, arcebispo Pietro Parolin, e o presidente do Governo da Cidade do Vaticano, Giuseppe Bertello.

Francisco tinha já nomeado Bertello para a comissão de cardeais encarregados de o aconselhar na reforma da Igreja.

Sinal que uma vasta reorganização está em curso é a nomeação para secretário-geral do Governo do Estado do padre Fernando Vergez Alzaga, atual diretor das telecomunicações, oriundo do movimento conservador dos Legionários de Cristo.

As grandes linhas da reforma da Cúria deverão ser conhecidas no início de outubro.