O Papa Francisco apelou esta terça-feira aos deputados europeus para construírem «uma Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana» e criticou a centralidade das «questões técnicas e económicas» no debate político.

Pedro Moreira, repórter da TVI24 em Estrasburgo, a acompanhar a visita do Papa, relatou no Twitter que o Sumo Pontífice recordou logo no início do discurso que o mundo é hoje diferente, já sem os «blocos contrapostos» que então dividiam a Europa, mas também «mais complexo e em intensa movimentação», e falou ainda do «envelhecimento» do continente que «dá a impressão de ser envelhecido e cansado, sentindo-se cada vez menos uma protagonista num mundo que muitas vezes a olha com indiferença, desconfiança e até mesmo suspeita».
 
O Papa Francisco discursou esta manhã no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, 26 anos depois de João Paulo II ter feito o mesmo, em 1988. 

Sobre a União Europeia (UE), em específico, o papa argentino considerou que, nos últimos anos, «tem vindo a crescer a desconfiança dos cidadãos relativamente às instituições», vistas não só como «distantes» dos povos mas que, mais do que isso, tomam medidas «prejudiciais» aos próprios povos.

«Uma Europa avó que já não é fecunda nem vivaz. Daí que os grandes ideais que inspiraram a Europa pareçam ter perdido a sua força de atração, em favor do tecnicismo burocráticos das suas instituições», disse Francisco, no hemiciclo, em Estrasburgo, perante os mais de 700 deputados mas também dos comissários europeus e do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.
 


O chefe máximo da Igreja Católica acrescentou que, na UE, «constata-se lamentavelmente a preponderância das questões técnicas e económicas» no debate político, em vez da centralidade da pessoa que devia existir.

Num discurso e que referiu por várias vezes a necessidade de reforçar a dignidade da pessoa humana, Francisco disse que um debate marcadamente técnico e económico corre o risco de reduzir o ser humano a uma «mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado». E que é descartado quando não é mais útil a esse sistema.

«Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer não lucrativa: cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas», apelou.

Francisco instou ainda aos parlamentares para a manterem «a democracia dos povos da Europa». Para isso, afirmou, é necessário evitar que a força dos povos seja sacrificada pela «pressão de interesses multinacionais não universais», que enfraquecem as democracias e «as transformam em sistemas unificadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos».

Após o seu discurso, Franciso foi a plaudido de pé no Parlamento Europeu, numa reação mais civilizada que em 1988, quando o Papa João Paulo II visitou Estrasburgo.
 
 

 


O papa Francisco apelou ainda à UE para dar «apoio e acolhimento» aos migrantes clandestinos que chegam às suas fronteiras.

«Não podemos tolerar que o mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério. Nas embarcações que chegam diariamente às costas europeias há homens e mulheres que precisam de apoio e de acolhimento», disse Francisco.
 


«É preciso haver uma resposta conjunta para a questão da imigração», adiantou.

O papa criticou a imagem dada pela Europa durante a crise económica, lamentando que «a uma União mais alargada, mais influente, pareça (…) juntar-se uma imagem de uma Europa um pouco envelhecida (…) que tende a sentir-se menos protagonista».

No discurso de boas vindas ao papa antes da sua intervenção, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, considerou que as palavras de Francisco «fornecem orientação nestes tempos em que faltam referências».

Schulz assinalou que tanto a UE como a Igreja Católica defendem os «valores da tolerância, da solidariedade e da paz», adiantando que a mensagem do papa é «muito europeia, porque encaixa na ideia da unidade europeia».