Durante meses, Gu Kailai viveu preocupada com um segredo que ameaçava mudar a sua confortável vida e impedir que o marido subisse aos mais altos degraus do poder na China. Por isso, ela agiu.

Num quarto de hotel, na megacidade de Chongqing, no sul da China, Gu misturou chá com veneno para ratos num pequeno recipiente, enquanto Neil Heywood, empresário britânico e seu parceiro de negócios, estava deitado na cama do hotel, bêbado e confuso. Depois, deitou o líquido na boca dele. O staff do hotel encontraria o corpo dois dias depois.

Neil Heywood, empresário britânico e parceiro de negócios de Gu Kailai, assassinado em 2011

Gu Kailai viria a confessar o crime, ocorrido em 2011. Disse que tinha sido levada a matar Heywood por causa das ameaças que ele lhe fazia, no sentido de expor um segredo obscuro: os milhões de dólares em bens imobiliários numa conta offshore do outro lado do mundo.

Se Heywood revelasse que ela tinha usado uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas para esconder a propriedade de uma casa no sul de França, pensou ela, o escândalo iria prejudicar o acesso do marido, Bo Xilai, ao Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista chinês, um grupo de menos de dez homens que ocupam o vértice do poder político na China.

Cerca de duas semanas depois do homicídio, num post-scriptum desconhecido até então, a estrutura de propriedade da empresa offshore de Gu mudou de repente. As suas ações na empresa foram transferidas para outro sócio, talvez numa tentativa de ocultar ainda mais as suas ligações à empresa ou de facilitar que o parceiro de confiança agisse rapidamente, à medida que os eventos se desenrolassem, segundo mostram os registos secretos.

No final, já nada podia esconder os segredos de Gu. Procurar manter o seu anonimato resultou na morte de Heywood, mas também na detenção de Gu Kailai e do marido – aumentando as já velhas preocupações com a forma como a elite chinesa usa os esconderijos dos paraísos fiscais para ocultar a sua riqueza.

A fuga de documentos que trazem novos detalhes sobre os negócios de Gu Kailai no exterior também revelam muita informação sobre as holdings offshore das famílias de outros chineses no poder.

Os documentos revelam que o cunhado de Xi Jinping, “o Dono Disto Tudo” chinês – Presidente da China, Secretário-Geral do Partido Comunista e chefe da Comissão Militar Central –, teve empresas em paraísos fiscais. Familiares de, pelo menos, mais sete outros membros ou ex-membros do Comité Permanente do Politburo – incluindo dois que atualmente fazem parte do grupo com Xi Jinping – também têm holdings em offshores.

Um deles é o marido de uma neta de Mao Tsé-Tung, o grande fundador da República Popular da China. Não é segredo que muitos dos filhos e netos dos heróis revolucionários chineses tiveram sucesso no mundo dos negócios. A China tem a segunda maior economia do mundo e tem centenas de multimilionários.

Mas não se sabe bem até que ponto é que algumas das pessoas mais ligadas à política na China entraram em redes de offshore para manter os seus bens escondidos dos olhos do público. E também pouco se sabe sobre os mecanismos que usam para o fazer.

Estes documentos foram obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI), pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung e outros meios de comunicação. Os registos – mais de 11 milhões de documentos no total – mostram o funcionamento interno da Mossack Fonseca, uma firma de advogados no Panamá, especializada na criação de estruturas empresariais que possam ser usadas para ocultar bens.

Entre os ambiciosos clientes chineses da firma está Deng Jiagui, cunhado do líder da China, Xi Jinping, que tem feito da anticorrupção uma marca do seu Governo. Deng Jiagui adquiriu uma empresa offshore através da Mossack Fonseca em 2004 e mais duas em 2009.

As empresas chamavam-se Supreme Victory Enterprises Ltd, Best Effect Enterprises Ltd. e Wealth Ming International Ltd.. Não é claro para que é que foram usadas. A Supreme Victory foi dissolvida em 2007 e as outras duas estavam inativas quando Xi Jinping se tornou secretário-geral do Partido Comunista, em 2012.

Outro dos proeminentes clientes da firma é a filha de Li Peng, primeiro-ministro da China entre 1987 e 1998. Li ficou conhecido internacionalmente por ter apoiado a sangrenta repressão militar dos protestos pró-democracia na Praça Tiananmen em 1989.

Li Xiaolin, filha do antigo primeiro-ministro  Li Peng

 

A filha, Li Xiaolin, e o marido são donos da Cofic Investments, uma empresa das Ilhas Virgens Britânicas constituída em 1994. Em e-mails internos, os advogados de Li Xiaolin dizem que os fundos da firma tiveram origem no apoio dado para facilitar a exportação de equipamento industrial da Europa para a China.

Os ficheiros mostram que a propriedade da empresa esteve encoberta durante muitos anos pelo uso das chamadas ‘ações ao portador’, registadas sem nomes (quem as tem na mão detem-nas). Durante muito tempo foram consideradas um veículo de lavagem de dinheiro e outras infrações, e foram, gradualmente, desaparecendo em todo o mundo, à medida que as regulamentações foram reforçadas, com o objetivo de parar o fluxo de dinheiro sujo.

A nova geração da chamada ‘nobreza vermelha’ parece ter conhecido o mundo offshore ainda em idade jovem. A neta de Jia Qinglin, que foi o número quatro do Comité Permanente do Politburo até 2012, tem bens em offshore. Jasmine Li Zidan tornou-se proprietária de uma empresa offshore chamada Harvest Sun Trading Ltd., em 2010 – quando era caloira na Universidade de Stanford.

Desde então, Jasmine Li já construiu um negócio surpreendente para quem ainda tem pouco mais de 20 anos: as suas duas empresas fantasma nas Ilhas Virgens Britânicas foram usadas para montar duas empresas em Pequim com um capital total registado de 300 mil dólares.

Ao ter as duas empresas nas Ilhas Virgens Britânicas por trás da participação de Li nas firmas em Pequim, Jasmine Li foi capaz de manter o nome da família fora dos documentos de registo público.

Os outros cinco atuais e ex-membros do Comité Permanente cujos familiares estão ligados a negócios em offshore são:

 

Zhang Gaoli, membro atual do Comité Permanente, tem um cunhado chamado Lee Shing Put, que era acionista em três empresas constituídas nas Ilhas Virgens Britânicas: Zennon Capital Management, Sino Reliance Networks Corporation e Glory Top Investments Ltd.

 

Liu Yunshan, membro atual do Comité Permanente, tem uma nora chamada Jia Liqing que foi presidente e acionista da Ultra Time Investments Ltd., uma empresa constituída em 2009 nas Ilhas Virgens Britânicas.

 

Zeng Qinghong, que foi presidente da China entre 2002 e 2007, tem um irmão chamado Zeng Qinghuai e que foi presidente de uma empresa, a China Cultural Exchange Association Ltd., constituída inicialmente em Niue [país insular associado à Nova Zelândia) e depois redomiciliada, em 2006, em Samoa [Estado soberano da Polinésia].

 

Hu Yaobang, que foi líder do Partido Comunista Chinês entre 1982 e 1987, tem um filho chamado Hu Dehua que foi acionista, presidente e beneficiário efetivo da Fortalent International Holdings Ltd., uma empresa constituída nas Ilhas Virgens Britânicas, em 2003. Hu Dehua usou a morada de casa para registar a empresa – a tradicional casa com pátio onde o seu pai viveu enquanto era líder do partido.

 

Mao Tsé-Tung, que liderou a China Comunista desde 1949 até à sua morte em 1976, está ligado através do marido de uma neta que constituiu a Keen Best International Limited, nas Ilhas Virgens Britânicas, em 2011. Chen Dongsheng é presidente de uma empresa de seguros de vida e de uma casa de leilões de arte, e era o único presidente e acionista da Keen Best.

 

O comunismo encontra o capitalismo

 

A fuga de documentos permitiu esclarecer como é que algumas elites políticas chinesas usam o mundo offshore para manter discretas as suas finanças.

Nem todos os negócios de offshore são ilegais, mas as constituições de empresas nas Ilhas Virgens Britânicas ou noutros sítios podem ser usadas para ocultar relações financeiras entre elites políticas e patrões ricos, para esconder bens, para fugir aos impostos e permitiu a compra anónima de ações. Também permitem que alguém com uma posição de relevo inicie um negócio onshore em nome da sua empresa fantasma offshore sem que, assim, ninguém saiba que é sua. Estas são apenas algumas das técnicas que estão a olear a maquinaria do capitalismo moderno com características comunistas da China.

Para além dos “príncipes” ligados à política, os clientes chineses da Mossack Fonseca incluem os super ricos como Shen Guojun, que fundou a rede chinesa de centros comercias Intime. Shen foi acionista, juntamente com a estrela de kung fu Jackie Chan, entre outros, de uma empresa chamada Dragon Stream Limited, constituída em 2008 nas Ilhas Virgens Britânicas.

Outro multimilionário, Kelly Zong Fuli, filho do multimilionário magnata dos refrigerantes, Zong Qinghou, adquiriu uma empresa fantasma nas Ilhas Virgens Britânicas, chamada Purple Mystery Investments, com ajuda da Mossack Fonseca, em fevereiro de 2015. O objetivo da empresa era “investimento na China”, segundo mostram cartas de correio.

Shen Guojun, Jackie Chan e Kelly Zong Fuli não responderam aos pedidos de comentário feitos pelo Consórcio de Jornalistas.

A firma de advogados do Panamá – considerada mundialmente como uma das cinco melhores empresas para constituição de empresas em offshore – montou a Mossack Fonseca Secretaries Limited em Hong Kong em 1989 e, nos seus primeiros tempos, funcionou a partir de um escritório no Kowloon Centre, em Tsim Sha Tsui, um bairro movimentado e iluminado a néon, conhecido pelos seus museus e pelo centro comercial.

Em 2000, estabeleceu o seu primeiro escritório na China. Hoje, segundo o site da empresa, tem escritórios em oito grandes cidades: Shenzhen, Ningbo, Qingdao, Dalian, Xangai, Hangzhou, Nanjing e Jinan.

Uma análise dos documentos, feita pelo Consórcio de Jornalistas, mostra que, no final de 2015, a Mossack Fonseca recebia honorários de mais de 16.300 empresas offshore constituídas através de escritórios em Hong Kong e na China. Representavam 29% das empresas ativas da Mossack Fonseca em todo o mundo, fazendo da Grande China o seu mercado líder. O escritório mais movimentado na Ásia – e mundialmente – é o de Hong Kong.

As regras internacionais quanto à lavagem de dinheiro requerem que intermediários como a Mossack Fonseca façam um escrutínio-extra a membros de Governo e às suas famílias para assegurar que o dinheiro não foi obtido por meios corruptos.

Uma análise dos ficheiros mostra que a firma registou outros clientes chineses sem determinar se tinham ligações familiares a figuras políticas de relevo. Os documentos mostram, por exemplo, que ninguém na firma reconhecia ou identificava Deng Jiagui como cunhado de Xi Jinping, quando o ajudaram a constituir empresas offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, em 2004 e 2009.

Durante anos também parece que a Mossack Fonseca não reconheceu ou não se apercebeu das ligações familiares de Li Xiaolin, a única filha do antigo primeiro-ministro chinês Li Peng.

A Mossack Fonseca não desaprovou a utilização de ações ao portador para controlar a empresa de Li Xiaolin e do marido, a Cofic Investments, até 2009, quando as Ilhas Virgens Britânicas introduziram regras mais apertadas contra a lavagem de dinheiro, proibindo o seu uso.

Os ficheiros mostram que a firma de advogados não investigou a fundo as informações sobre os verdadeiros acionistas da empresa, mesmo quando a sua estrutura de propriedade foi transferida, em 2010, das ações ao portador para outro acordo secreto, uma fundação no pequeno principado do Liechtenstein, na Europa Central.

Nessa altura, Li Xiaolin estabeleceu-se na China como alguém mais do que apenas filha do famoso líder político. Tornou-se uma executiva de topo no sector energético chinês – ganhando a alcunha de “Rainha da Energia da China” – e tornou-se membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um organismo de consulta da legislatura chinesa.

Há e-mails que mostram que finalmente a Mossack Fonseca percebeu que Li Xiaolin e o marido eram os verdadeiros proprietários da Cofic Investments, em 2014, em resposta a um pedido de informação dos reguladores financeiros das Ilhas Virgens Britânicas.

Os ficheiros não deixam claro qual o assunto desse pedido de informação, mas, até mesmo nessa altura, pelo menos alguns dos funcionários da firma de advogados ainda não se tinham apercebido que Li Xiaolin era uma importante interveniente nos negócios e na política da China.

Charles-Andre Junod, advogado baseado em Genebra e diretor da Cofic Investments, recusou fazer um comentário, mas disse ter sempre respeitado as legislações aplicáveis. Li Xiaolin não respondeu aos vários pedidos de comentário.

Numa carta para o Consórcio de Jornalistas, a Mossack Fonseca disse que a firma “estabeleceu devidamente as políticas e procedimentos” para identificar e lidar com casos que envolvessem políticos ou pessoas a eles associadas. Disse ainda que a empresa considera esses casos de “elevado risco” e que leva a cabo um controlo mais intenso e atualizações periódicas dessas situações.

“Levamos a cabo as devidas e exaustivas diligências sobre todos os novos e potenciais clientes, muitas vezes excedendo em rigor as regras e normas existentes, a que nós e outros estamos sujeitos.”

 

Uma empresa vale 1 dólar

 

Outra “princesa” que escorregou para fora do processo de verificação da Mossack Fonseca, sem que lhe prestassem muita atenção, foi Jasmine Li, neta de um antigo membro do Comité Permanente. Jasmine Li estava a estudar em Stanford quando entrou no mundo das offshores.

Não há provas nos documentos da Mossack Fonseca agora analisados de que a firma tenha obtido uma cópia da fotografia de Jasmine, apesar de dever fazer parte dos procedimentos normais. Se os funcionários da Mossack Fonseca tivessem feito uma verificação mais detalhada, talvez tivessem descoberto a relação financeira entre ela e outro dos seus clientes, Zhang Yuping, presidente e fundador da Hengdeli, uma distribuidora chinesa de relógios de luxo.

Zhang era o único acionista de uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, a Harvest Sun Trading Limited. Registos públicos mostram que a Harvest Sun foi usada para comprar ações, em abril de 2010, de uma empresa cotada em Hong Kong, chamada China Strategic Holdings. Meses depois, em agosto, a empresa vendeu algumas das ações, e depois livrou-se do remanescente da sua participação em setembro, segundo os registos da bolsa de Hong Kong.

Em dezembro de 2010, de acordo com os registos da firma de advogados, Zhang transferiu a propriedade da então já vazia empresa fantasma para Jasmine Li, então caloira na Universidade de Stanford, de acordo com a sua página no LinkedIn. Preço de venda: 1 dólar.

Os registos da Mossack Fonseca mostram que Jasmine Li tem uma segunda empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, chamada Xin Sheng Investments Limited. Jasmine usou a Harvest Sun e a Xin Sheng para criar duas empresas em Pequim, com nomes semelhantes, e interesses na área do entretenimento e do mercado imobiliário. As empresas offshore atuaram como proteção da sua identidade.

O advogado de Zhang, Victor Lee, confirmou por e-mail que a Harvest Sun foi transferida de Zhang para Jasmine Li em 2010. O advogado disse que não havia ativos na Harvest Sun, na altura desse movimento, e que Zhang considerou essa transferência “aceitável” porque a empresa era “apenas uma empresa fantasma sem ativos dentro”.

“O nosso cliente não tinha nenhuma relação com Jasmine Li, que lhe foi apresentada por alguns parceiros de negócio”, escreveu o advogado, sem dar detalhes.

Victor Lee disse que a transferência significava que Jasmine Li poderia ter a empresa “sem ter a necessidade de criar outra empresa fantasma”.

Os empresários chineses tentam muitas vezes obter favores junto de altos dirigentes, ajudando as suas mulheres, filhos, netos ou outros familiares próximos. A natureza destes laços simbióticos mas secretos foi exposta durante os julgamentos de Gu Kailai e o marido Bo Xilai, que dependiam muito de Xu Ming, um endinheirado magnata da indústria dos plásticos de uma zona do nordeste da China.

Bo Xilai, com o filho, Bo Guagua

Como Bo Xilai disse durante o seu julgamento por corrupção em agosto de 2013: “Xu Ming deu muita assistência financeira à minha família… Ajudei-o a alcançar ‘progressos rápidos’ e ele ajudou-me a tomar conta do meu filho.”

 

"Luvas brancas"

 

Durante mais de uma década, Gu Kailai conseguiu manter a sua participação na empresa offshore nas Caraíbas que, por sua vez, lhe permitiu também manter a casa no Mediterrâneo sob segredo. Gu e o marido tinham todas as características de um casal com poder na China.

Gu Kailai, filha de um antigo general do Exército de Libertação Popular, trabalhou como ajudante de um talhante durante a Revolução Cultural, mas veio depois a tornar-se numa advogada de sucesso. Bo Xilai, filho de um dos poderosos “Oito Imortais” do Partido Comunista Chinês, foi chefe do Partido Comunista em Chongqing e, em 2011, era o candidato principal para o Comité Permanente do Politburo, assim como possivelmente o chefe de segurança interna do país.

À medida que o marido foi subindo, Gu adquiriu uma casa com seis quartos em Cannes, na Riviera Francesa. A moradia foi comprada em 2001 com fundos de Xu Ming, que contornou os rigorosos controlos de capital na China, falsificando a compra de uma oficina de aço, de maneira a transferir 3,2 milhões de dólares para uma offshore.

A empresa que estava a vender a inexistente oficina de aço ficou com uma pequena parte do dinheiro e transferiu o resto para a Russell Properties S.A., uma empresa das Ilhas Virgens Britânicas da qual Gu e um sócio francês, o arquiteto Patrick Henri Devillers, eram secretamente co-proprietários. A Russell Properties S.A transferiu dinheiro para uma empresa em França que comprou e geriu a casa de Gu Kailai em Cannes. No papel, nada ligava a Russell Properties a Gu ou ao seu marido.

Gu usou a Villa Fontaine St. Georges como um investimento, na esperança de conseguir dinheiro a partir do seu arrendamento. Mais tarde, Gu confessou ter escondido a sua propriedade da empresa e da casa porque queria “minimizar” os impostos. “Não queria que outras pessoas soubessem que tinha bens no exterior”, disse.

Para gerir a casa, falou com Neil Heywood, um amigo da família que tanto tinha de exuberante como de misterioso. Era conhecido por andar em Pequim num Jaguar com os números “007” na matrícula. O jornal britânico The Guardian afirmou que ele se referia a Gu como uma “imperatriz” implacável.

Ao ajudar Gu, Heywood tornou-se parte de uma indústria de operadores de casas de campo que funcionam como fachada para os chineses ricos, que querem manter em segredo os seus bens no exterior. Estes procuradores – conhecidos na China como “luvas brancas” – muitas vezes detêm as participações no imobiliário e outros investimentos dos seus verdadeiros proprietários.

Trabalhar como um “luva branca” para a elite partidária e corporativa tornou-se um negócio lucrativo na China. Para Heywood, também viria a tornar-se mortal. 

 

O desenlace

 

A Mossack Fonseca “herdou” a Russell Properties S.A. como parte de um lote de outras empresas offshore transferidas de outro agente registado, em meados de 2011.

Na altura, as ações da empresa eram detidas pelo IFG Trust e IFG Secretaries, procuradores localizados em Jersey, nas Ilhas do Canal. Os registos sobre os diretores e acionistas da empresa não mencionavam Devillers ou Gu Kailai, e não havia nenhuma ligação óbvia à China.

Mas, depois, tudo começou a desvendar-se.

Gu prometeu a Heywood, que estava a gerir a sua casa em França, uma parte do negócio de imobiliário em Chongqing. Neil Heywood achou que não estava a receber uma parte justa. No início de 2011, contaria Gu mais tarde, Heywood abordou o filho do casal, Bo Guagua, para que ele pressionasse a família a dar-lhe mais dinheiro. Heywood ameaçou revelar que Gu era proprietária da casa, contaria a própria.

Segundo os relatos do seu julgamento, Gu e Heywood encontraram-se no dia 13 de novembro de 2011, no Lucky Holiday Hotel, em Chongqing, para discutir o problema. Jantaram e subiram ao quarto dele para uma bebida. Heywood bebeu metade de uma garrafa de whiskey Royal Salute e vomitou antes de ter sido arrastado para a cama por um assistente da família de Bo, Zhang Xiaojun.

Heywood pediu água a Gu, que misturou o veneno para ratos com chá, num pequeno recipiente de molho de soja, e deu-lhe a beber. Gu esperou até deixar de sentir o pulso de Heywood, e depois seguiu para o seu quarto no hotel e foi dormir.

Os ficheiros mostram agora que, duas semanas depois, a Mossack Fonseca ajudou a transferir as ações de propriedade da Russell Properties S.A. – a empresa fantasma que controlava a casa em Cannes – dos procuradores da IFG para Patrick Henri Devillers, o arquiteto francês que ajudou Gu a montar a empresa, em 2000.

Nos papéis da transferência, Devillers usou a morada do anterior escritório de advogados de Gu em Pequim. Segundo os documentos do tribunal, a Russell Properties tinha sido inicialmente detida a 50/50 por Gu e Devillers, através de dois procuradores das Ilhas do Canal.

Não é claro por que razão a transferência foi feita tão pouco tempo depois do crime ou por que é que a parte de Gu foi transferida para Devillers.

De facto, parece estranho que Devillers tenha escolhido pôr a empresa em seu nome e tenha usado a morada do escritório anterior de Gu nos registos, deixando assim as suas impressões e as dela na empresa.

O movimento, no fundo, removeu a IFG como ‘intermediário’. O resultado foi que Devillers conseguiu estabelecer contacto direto com a Mossack Fonseca, permitindo-lhe assim ter um controlo maior e mais imediato sobre a empresa.

No início de 2012, Devillers apareceu várias vezes nas notícias na China, Reino Unido, França, Austrália e Estados Unidos da América por causa das suas ligações ao julgamento de Gu por homicídio e ao escândalo de corrupção de Bo Xilai. Porém, segundo os ficheiros, durante vários meses no início de 2012, a Mossack Fonseca parecia permanecer alheia ao caso.

Durante este tempo, Devillers mandou um e-mail à firma do Panamá para pedir que o deixassem transferir a Russell Properties para outro agente de offshore chamado Morgan & Morgan Trust.

Depois, a 7 de junho de 2012, os reguladores das Ilhas Virgens Britânicas lançaram uma investigação à Russell Properties S.A., pedindo à Mossack Fonseca informação sobre os proprietários e diretores da empresa, entre outros detalhes. Quatro dias mais tarde, o responsável de conformidade da firma panamiana alertou os colegas num e-mail interno para o facto de Devillers poder estar ligado a uma investigação na China.

A 12 e 13 de junho, a Mossack Fonseca mandou emails diretamente a Devillers, com conteúdos que denotam uma crescente ansiedade, partilhando links para notícias sobre o escândalo de Bo Xilai e Gu Kailai, e o alegado papel de Devillers nele.

“Os artigos mencionam uma pessoa com o seu nome e nacionalidade”, escreveu a firma de advogados. "Por favor informe-nos são uma e a mesma pessoa.”

Devillers parece nunca ter respondido.

Em resposta às autoridades das Ilhas Virgens Britânicas, a firma informou que um homem chamado Patrick Henri Devillers era o único acionista e diretor da Russell Properties, e o “nosso último contacto em relação a esta empresa”. Não fez nenhuma menção às aparentes ligações entre a empresa e o escândalo revelado na China, apesar de ter prometido aprofundar a pesquisa e vir a dar mais informação sobre Devillers e a empresa.

 

Casa à venda

 

Devillers vive atualmente no Cambodja. O seu testemunho foi usado tanto no julgamento de Gu como de Bo, mas nunca foi acusado de nenhum crime. Devillers não respondeu aos repetidos pedidos de comentário feitos pelo Consórcio de Jornalistas.

Bo está a cumprir prisão perpétua por suborno, fraude e abuso de poder, apesar de ter dito que um dia lhe será feita justiça. Gu foi condenada à morte pelo homicídio de Heywood. Em dezembro de 2015, as autoridades chinesas reduziram a pena para prisão perpétua.

O julgamento no tribunal contra Bo decidiu que a casa em Cannes fosse confiscada pelo Governo chinês. A imprensa local disse em 2014 que estava à venda. Preço proposto: 8,5 milhões de dólares.

*Por Alexa Olesen e Wen Yu