O nome de Rami Makhlouf, primo de Bashar al Assad, presidente da Síria, um país que está em guerra civil há cinco anos, também consta da lista de clientes da firma de advogados Mossack Fonseca, no centro da fuga de informação que envolve políticos, figuras públicas e barões de droga, esquemas de alegada fuga ao fisco e corrupção, designada como Papéis do Panamá.

A família Makhlouf detinha, antes de começar a guerra civil na Síria, cerca de 60% da economia do país, uma fortuna que continuou a gerir, mesmo depois do início do conflito.

 

Syriatel, companhia de telecomunicações que pertence ao primo de Bashar Al Assad, Rami Makhlouf, que está citado nos Papéis do Panamá (Foto Reuters)

 

Primos na lista negra de corrupção dos EUA desde 2007

As suspeitas, contudo, face à legalidade da origem da fortuna destes familiares do presidente sírio começaram muito antes. Em fevereiro de 2008, os Estados Unidos colocaram Rami Makhlouf numa “lista negra” por considerarem este homem um “testa de ferro para a corrupção”, um membro do regime sírio que “recebia indevidamente benefícios” públicos, segundo o jornal Guardian. Um ano antes, também o irmão de Rami havia sido colocado na lista norte-americana.

Razões que não foram suficientes para impedir a firma de advogados do Panamá de trabalhar com Rami Makhlouf. Nem mesmo depois da guerra civil começar.

A Mossack Fonseca entendeu que, apesar do nome do cliente estar nessa “lista negra” para a corrupção, não tinha de acatar diretivas norte-americanas e continuou a trabalhar para os irmãos sírios até setembro de 2011.

Com efeito, a Mossack Fonseca não tinha que respeitar a decisão americana, mas não podia contornar as sanções impostas pela União Europeia em maio de 2011. É que as várias empresas detidas pelo primo do presidente sírio, incluindo a maior companhia de telecomunicações Syriatel, estavam registadas nas Ilhas Virgens Britânicas, às quais se aplica a legislação europeia por extensão da sua aplicação ao Reino Unido.

Por isso, a Mossack Fonseca devia ter reagido e cortado os laços com Rami Makhlouf desde a altura em que estas sanções entraram em vigor nas Ilhas Virgens Britânicas, ou seja, em junho de 2011, mas só veio a fazê-lo em setembro desse ano.

Em 2010, já as autoridades tributárias das Ilhas Virgens pediram à firma de advogados panamiana informações sobre o cliente.

A postura do banco HSBC

Segundo o jornal britânico, a fuga de informação também deixa a descoberto as relações entre Rami Makhlouf e o HSBC, que permitiu ao empresário sírio manter as contas na Suíça, apesar do cerco se começar a apertar para o primo do presidente sírio. Alguns emails da firma, agora divulgados, revelam que, em fevereiro de 2011, aparentemente, o HBSC estava ao corrente da situação e não tinha problemas com estes factos: “O Sr. [X] disse-me que o HBSC, quer em Genebra, quer na sede, em Londres, têm conhecimento da situação do senhor Makhlouf e estão de bem com isso”, cita o Guardian.

O conflito na Síria rebentou em março de 2011. A Suíça veio a congelar, poucos meses depois, as contas de Rami Makhlouf, logo após a aplicação das sanções por parte da União Europeia. O HBSC emitiu um comunicado: “Trabalhamos em estreita relação com as autoridades para combater o crime financeiro”. Por seu turno, a Mossack Fonseca respondeu: “Uma vez identificadas estas situações, nós, por regra, descontinuamos a prestação dos nossos serviços”.

Pontas de um longo novelo, que inclui 11,5 milhões de ficheiros. A revelação está a ser feita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, a que a TVI pertence e que junta muitos outros órgãos de comunicação social em todo o mundo.