A 9 dias de barco do Taiti localiza-se um dos mais remotos lugares do planeta. Chamaram-lhe a ilha do "fim da Terra", mas o nome oficial é ilha de Palmerston.

Composta por minúsculas ilhas interligadas por um recife, Palmerston tem apenas 2,6Km2 de área. A sua forma assemelha-se a um anel, com o oceano Pacífico do lado de fora e uma lagoa por dento.

No meio do oceano, a 500Km da ilha de Rarotonga, a maior das ilhas Cook, tem uma população de 62 pessoas, praticamente toda descendente do mesmo homem, William Marsters, que no século XIX "casou" com três mulheres e criou as três famílias residentes da ilha.

Marsters originalmente rumou a Palmerston em 1863 com duas "esposas", mas acabou por "casar" com uma terceira. Destes casamentos descende quase toda a população, que nos anos 50 a 70 do último século chegou aos 300 elementos.

À exceção de duas professoras e uma enfermeira, todos os habitantes de Palmerston são parentes, apesar de ser proibido casar dentro do mesmo grupo/família.

O pequeno território faz parte das ilhas Cook, ainda que esteja também associada à Nova Zelândia. Não tem aeroporto e um helicóptero "normal" não tem capacidade para chegar até lá. A única entrada é por mar, uma viagem de 9 dias.

Marsters foi enviado para Palmerston para cuidar do território e plantar palmeiras para a produção de óleo de côco. Em 1892, acabaria por se tornar dono da ilha, depois de aprovação da rainha Vitória.

Não existe dinheiro para trocas comerciais, esse é apenas usado para negócios com os cargueiros que passam na ilha uma ou duas vezes por ano (em média, pois já passaram 18 meses sem que um barco apareça). Entre os habitantes locais a prática comum é a partilha de bens. Um orgulho para um dos residentes, Bob Marsters.

«É uma das coisas que me orgulha nas famílias de Palmerston. Trabalhamos juntos, gostamos uns dos outros e partilhamos. Se eu estiver sem arroz ou farinha posso ir à porta do lado e pedir, eles dão», contou Bob à BBC.

«Estou muito contente que não se venda nada aqui. O barco de mantimentos não vem durante seis meses, mas não choramos por causa de arroz ou carne, arranjamo-nos com côcos e peixe. Mas o dia em que o cargueiro chega, parece Natal», continuou Bob.

Segundo o jornalista da BBC que esteve no remoto local, Palmerston é uma nação livre no verdadeiro sentido da palavra. Cada um pode escolher o que quer fazer, dia ou noite. No entanto, não se trata de uma anarquia, Palmerston tem escola onde estudam as crianças da ilha, uma igreja e até polícia (apesar de ser apenas um e considerado até desnecessário pela falta de crime).

É possível aceder à internet durante algumas horas por dia e até receber sinal de telemóvel em algumas partes, mas por outro lado, existe somente uma televisão, a água potável é recolhida da chuva e existem apenas duas casas-de-banho para todos.

O isolamento é a principal razão para que muitos, principalmente a geração mais jovem, queira deixar o pequeno território, assim como a possibilidade de estudar e trabalhar noutras áreas que Palmerston não oferece e casar fora da grande família.

Shekinah Marsters quer ser advogada e poderá ser a primeira pessoa de Palmerston a sair para a universidade. No entanto, a jovem de 16 anos afirma que a sua casa sempre será a ilha.

«Eu quero seguir a minha carreira, mas também quero regressar a Palmerston, será sempre a minha casa e vou querer voltar sempre que puder. (...) Desde que fui à Nova Zelândia que quero voltar. Eu não me aborreço aqui, mas sinto-me desencorajada. Nado, pesco, toco guitarra, mas é tudo», disse a jovem.