A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pediu este sábado uma “investigação independente” sobre o uso de munições reais pelo exército de Israel na fronteira com Gaza durante confrontos que fizeram pelo menos 16 mortos e centenas de feridos.

O uso de munições reais deve ser objeto de uma investigação independente e transparente", afirmou a Alta Representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, sublinhando que o bloco comunitário lamenta as mortes e endereça as suas condolências às famílias das vítimas.

A liberdade de expressão e a liberdade de reunião são direitos fundamentais que devem ser respeitados", acrescentou a representante, falando em nome dos 28 países-membros da UE.

Milhares de palestinianos marcharam na sexta-feira em direção à barreira fronteiriça que separa a Faixa de Gaza de Israel, mais de 30 mil segundo o exército israelita e cerca de 40 mil de acordo com fontes palestinianas, para defender “o direito de regresso” dos refugiados palestinianos às terras que tiveram de abandonar durante a guerra da independência israelita de 1948 e denunciar o bloqueio rigoroso em vigor contra este enclave palestiniano.

O protesto intitulado "A Grande Marcha do Regresso", convocado pelo movimento radical palestiniano Hamas (que controla a faixa de Gaza desde 2007) e que deve durar cerca de seis semanas, degenerou em confrontos com o exército israelita.

Pelo menos 16 palestinianos perderam a vida e cerca de 1.400 pessoas ficaram feridas.

A maioria (758 pessoas) apresentava ferimentos provocados por balas reais disparadas pelas forças israelitas. Os restantes foram feridos por balas de borrachas e pelos efeitos do gás lacrimogéneo usado pelos militares israelitas.

Tratou-se do dia mais sangrento desde a guerra de 2014 em Gaza.

Israel promete mais força

Israel intensificará a sua resposta se continuarem os protestos violentos junto à fronteira com Gaza, assegurou este sábado o porta-voz do exército israelita, o brigadeiro-general Ronen Menelis.

Se o Hamas pretende continuar assim e transformar a fronteira num lugar de acontecimentos violentos diários até maio, não vamos permitir este jogo de pingue-pongue: eles a cometerem atos terroristas camuflados por protestos e nós a reagirmos. Iremos mais longe para acabar com a violência”, disse o porta-voz do exército israelita, em declarações aos jornalistas e citado pela agência noticiosa espanhola EFE.

Ainda sobre os incidentes de sexta-feira, Ronen Menelis também sublinhou que o exército israelita se limitou a reagir quando os manifestantes tentaram chegar à fronteira.

A entrada forçada noutro país soberano é algo que nenhum país tolera e nós também não”, reforçou.

O brigadeiro-general do exército israelita considerou também que todas as vítimas mortais estavam a cometer ações violentas durante o protesto.

Novas manifestações são esperadas para os próximos dias junto da zona fronteiriça.

Protestos continuam

O Hamas apelou à população de Gaza que mantenha os protestos, nomeadamente com a montagem de um acampamento improvisado junto da fronteira, até 14 de maio, o dia da Nakba (que significa catástrofe), data que os palestinianos associam à criação do Estado de Israel em 1948.

Milhares de pessoas participaram hoje nos funerais dos manifestantes mortos na sexta-feira, algumas exibindo bandeiras palestinianas e entoando slogans a apelar a atos de vingança.

A ONU afirmou estar atenta aos acontecimentos ocorridos em Gaza, com o secretário-geral da organização, António Guterres, a pedir uma "investigação independente e transparente" dos confrontos.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se de urgência na sexta-feira à noite para discutir a violência na Faixa de Gaza, mas não conseguiu acordar uma declaração conjunta.