A Organização das Nações Unidas (ONU) assumiu esta quinta-feira que enfrenta um bloqueamento quase total dos acessos humanitários a áreas cercadas por militares na Síria, onde estão cerca de 420.000 civis, incluindo Ghouta oriental.

Em novembro deixámos de ter acesso, e comunicámos ao grupo de trabalho [de países com influência no conflito sírio e que se reúnem semanalmente em Genebra] que não podemos continuar assim”, lamentou o responsável pela missão da ONU, Jan Egeland, na 37.ª sessão do Conselho de Direitos Humanos.

Jan Egeland disse ainda que o cessar-fogo de 30 dias aprovado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) durante o fim-de-semana não melhorou a situação em Ghouta oriental.

Egeland, chefe do grupo de trabalho humanitário da ONU para a Síria, elogiou as tréguas diárias de cinco horas propostas pela Rússia que considera “positivas”, mas insuficientes.

O mesmo responsável referiu que numa reunião do grupo de trabalho, na terça-feira, foi discutida a hipótese de um diálogo com Moscovo, de modo a conseguir que a iniciativa russa permita corresponder aos padrões de ajuda humanitária.

Violações das tréguas

O apelo surge após violações da trégua, com o exército russo a acusar rebeldes sírios do uso de artilharia sobre um corredor humanitário criado pelas forças de Moscovo em conjunto com o governo Sírio.

A agência noticiosa síria SANA, relatou na quarta-feira que alguns dos projéteis caíram perto do corredor, mas que não houve registo de feridos.

Também o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, pediu a todos os que têm influência no conflito no país que intercedam de modo a evitar que Ghouta Oriental tenha um destino semelhante ao de Aleppo.

Não queremos a repetição do que aconteceu em Aleppo", comunicou Staffan de Mistura aos repórteres.

O representante recordou as perdas humanas e patrimoniais resultantes das ofensivas promovidas pelas forças governamentais e apoiadas pela Rússia, com o objetivo de recuperar a cidade de grupos rebeldes.

De Mistura afirmou ainda que a ONU não vai desistir de continuar a dar ajuda humanitária aos civis encurralados em Ghouta Oriental.

Um especialista das Nações Unidas, Michel Forst, lembrou os Estados que têm a obrigação de proteger os defensores dos direitos humanos, que ajudam milhares de pessoas todos os anos.

Na apresentação de um relatório sobre a situação dos defensores dos direitos humanos, Forst salientou o “papel fundamental” que destes.

O especialista alertou que aqueles que defendem os direitos dos deslocados enfrentam ameaças e restrições ao seu trabalho nunca antes vistas, e apontou que são “regularmente, também eles, pessoas deslocadas”.

O enclave rebelde de Ghouta Oriental está desde 2013 sob um cerco das forças leais a al-Assad e os cerca de 400 mil habitantes são vitimas diariamente, além dos bombardeamentos, de falta de alimentos e de medicamentos.

Desencadeado a 15 de março de 2011 na sequência da repressão de manifestações pacíficas pró-democracia, o conflito na Síria, que se estende a ouras regiões, já causou mais de 340.000 mortos, bem como milhões de deslocados e refugiados.