O número de deslocados no mundo atingiu um novo recorde, com 65,3 milhões de pessoas forçadas a deixar as suas casas no final de 2015, anunciou nesta segunda-feira a ONU, durante a apresentação do relatório anual, em Genebra.

Esta foi a primeira vez que o limiar dos 60 milhões foi ultrapassado”, disse o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), referindo-se ao aumento de 5,8 milhões de deslocados relativamente ao ano anterior.

Os números, divulgados no Dia Mundial do Refugiado, sublinham fatores de pressão que alimentam uma crise global sem precedentes.

Isto é, uma em cada 113 pessoas no mundo foi deslocada em 2015, segundo a ONU.

E há três razões que explicam, no essencial, este número recorde: situações a longo termo, como o conflito no Afeganistão, que causam grandes fluxos de refugiados, estão a durar mais tempo; novos conflitos ou conflitos que se reacendem, como acontece na Síria e no Sudão do Sul, estão a ocorrer com mais frequência; e, por último, o ritmo em queda a que estão a ser encontradas soluções para os refugiados e para os deslocados a nível interno desde o final da Guerra Fria.

Em 2014, um valor recorde tinha sido já atingido desde a Segunda Guerra Mundial, com 60 milhões de deslocados na Europa. Os seis deslocados a cada minuto contrastam, agora, com os 24 por minuto em 2015, ou seja, 34 mil deslocados num dia.

Espero que a mensagem que os deslocados trazem chegue aos líderes mundiais, uma mensagem que é: ‘se não resolvem os problemas, os problemas vêm até vocês’. Precisamos de agir, de ação política, para terminar com os conflitos”, afirmou o alto comissário Filippo Grandi.

Mais de metade dos refugiados são oriundos da Síria, Afeganistão e Somália.

A Turquia foi, pelo segundo ano consecutivo, o principal país de acolhimento, recebendo 2,5 milhões de pessoas, quase todos do país vizinho Síria. O Paquistão, vizinho do Afeganistão, recebeu 1,6 milhões, enquanto o Líbano, também próximo da Síria, acolheu 1,1 milhões de pessoas.

Mais de um milhão de pessoas procurou refúgio na Europa no ano passado, estando na origem de uma crise política sem precedentes na União Europeia.

Filippo Grandi apelou, por isso, aos países europeus para que combatam a xenofobia que tem ressurgido com a crise de refugiados, uma xenofobia transversal, que vai desde a construção de muros à criação de leis que impedem o acesso dos deslocados aos estados mais ricos da Europa.

Não há um plano B para a Europa a longo prazo. A Europa vai continuar a receber pessoas à procura de asilo. O número pode variar, mas é inevitável”, avisou.

Portugal já recebeu cerca de 370 refugiados

O coordenador do Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) faz um balanço “muito positivo” do acolhimento em Portugal destas pessoas, que recebeu até agora cerca de 370 refugiados, número que vai aumentar até ao final deste mês.

A PAR recebeu 125 pessoas, mas Portugal, no seu todo, já recebeu cerca de 370 pessoas, que estão acolhidas não só na PAR, mas também noutras instituições como a União das Misericórdias, a Cruz Vermelha, a Câmara de Lisboa ou o CPR [Centro de Acolhimento para Refugiados]”, disse hoje Rui Marques à agência Lusa, dia em que se assinala o Dia Mundial do Refugiado.

O responsável tem a expetativa de que a PAR, direcionada para o acolhimento de crianças e respetivos familiares, “venha a ultrapassar as 200 pessoas” acolhidas até ao final de junho.

Nos próximos dias vamos receber mais refugiados. Praticamente [em] todas as semanas que se seguem há já planeamento de receção de mais famílias de refugiados. Agora a cadência de chegada é semanal e tem corrido muitíssimo bem”, sublinhou Rui Marques.

O coordenador da PAR conta que após meses em que o programa de recolocação de refugiados “não funcionou”, a realidade atual é bem diferente, com uma inversão deste rumo, que se acentuou nas últimas semanas com a chegada de mais refugiados a Portugal