O antigo primeiro-ministro António Guterres afirmou que o fenómeno dos refugiados é "uma tragédia" e que há razões para "pessimismo", alegando que os conflitos de origem permanecem, as fronteiras fecham-se e o número de deslocados aumenta.

António Guterres, ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e atual candidato a secretário-geral das Nações Unidas, falava, esta quinta-feira, numa conferência promovida pelo PS sobre os refugiados. Uma conferência em que Guterres teve ao seu lado a secretária-geral adjunta dos socialistas, Ana Catarina Mendes, e que contou também com a participação do ex-eurodeputado Rui Tavares.

Perante cerca de duas centenas de pessoas, o primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002 traçou um quadro dramático sobre a situação dos refugiados à escala mundial, advertindo que nos últimos anos se tem assistido "a uma aceleração enorme e dramática" sobre a existência de cada mais pessoas que fogem de conflitos.

Guterres apresentou depois números que "dão uma ideia da tragédia a que estamos a assistir", referindo que em 2010 o número de refugiados por dia era de 11 mil, em 2011 de 14 mil por dia, em 2012 de 23 mil por dia, em 2013 de 32 mil e em 2014 era já de 42500 por dia.

Assiste-se a uma multiplicação de novos conflitos, ao mesmo tempo que os velhos conflitos, como os da Somália e do Afeganistão ou da República Democrática do Congo, parecem não querer desaparecer. No início da década, o ACNUR ajudava cerca de um milhão de refugiados por ano a regressar às suas casas, mas a verdade é que esses números em 2014 baixaram para menos de 250 mil pessoas", disse.

Ora, concluiu Guterres, "isto é uma tragédia para a qual não vemos sinceramente razões para otimismo nos anos mais próximos".

A Síria e depois o Iraque foram os grandes motores da aceleração e, apesar das iniciativas para a paz, a verdade é que estamos ainda muito longe desse caminho. Por outro lado, há situações no mundo em que não se vê qualquer progresso a curto prazo", sustentou.

Ou seja, de acordo com o antigo primeiro-ministro socialista, importa estar "preparados para que o número de refugiados não diminua nos próximos anos e para que esta tragédia não tenha uma solução na origem do problema, independentemente de todos os esforços que devem ser dirigidos para a prevenção e resolução dos conflitos".

Mais grave, ainda - frisou Guterres -, é que as fronteiras antes estavam globalmente abertas para os refugiados ainda no início da década, o que acontece cada vez menos agora, sobretudo entre os países da Europa.

As fronteiras começaram a fechar-se, sobretudo em países desenvolvidos, o que está a ter um efeito de arrastamento a montante. É cada vez mais difícil aos sírios deixarem o seu país para encontrarem proteção no exterior", frisou o candidato a secretário-geral das Nações Unidas.

A seguir, Rui Tavares, historiador e responsável máximo do Livre, fez um rasgado elogio a António Guterres, manifestando-lhe um inequívoco apoio na sua corrida ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas.

Também presente na sessão, o ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, disse que a questão dos refugiados, "felizmente, tem grande consenso em Portugal" no que respeita às formas de acolhimento, em contraponto "com o fracasso da estratégia europeia" neste domínio. Eduardo Cabrita, além de António Guterres, destacou também o papel desempenhado pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio no acolhimento de refugiados. A conferência abriu com depoimentos (alguns deles dramáticos) de jovens refugiados provenientes Eritreia, Síria e Iraque.