O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou esta segunda-feira que o mundo "corre o risco de perder a corrida" face à aceleração das alterações climáticas e vincou a "falta de ambição suficiente" para concretizar as metas internacionais.

As alterações climáticas são a maior ameaça coletiva e do planeta e continuam a andar mais depressa do que nós próprios", disse António Guterres, no discurso de aceitação do título de Doutor Honoris Causa proposto pelo Instituto Superior Técnico (IST), que decorreu esta segunda-feira na Aula Magna da Universidade de Lisboa.

António Guterres advertiu que a humanidade corre "o risco de perder esta corrida" e frisou a necessidade de um compromisso coletivo e "de uma ambição acrescida" para a concretização dos acordos internacionais no domínio das alterações climáticas.

Lembrando que alguns decisores internacionais ainda não acreditam nos efeitos das alterações climáticas, Guterres salientou que ainda existe "falta ambição suficiente para aplicar os Acordos de Paris e para assumir que estes compromissos não são suficientes".

O secretário-geral da ONU lembrou algumas consequências do aquecimento global, mencionando, entre outros, o cenário de seca vivido em Portugal, e acentuou que há que "fazer tudo para inverter esta aceleração".

"Sincera esperança" em pacto global para migrações

O secretário-geral da ONU disse ainda ter a “sincera esperança” de que quase todos os países adotem em 2018 um documento compacto para as migrações, algo que “dignifique a comunidade internacional” e reconheça os direitos dos migrantes.

“Tenho a sincera esperança de que seja possível aprovar um compacto, que seja um compacto que dignifique a comunidade internacional e que reconheça o papel positivo das migrações e que reafirme os direitos dos migrantes”, afirmou António Guterres.

O Global Compact for Migration (na versão em inglês), que deu os primeiros passos em setembro de 2016, sofreu um revés quando, em dezembro passado, o Presidente norte-americano, Donald Trump, decidiu retirar os Estados Unidos deste pacto da ONU, alegando que o acordo é “incompatível” com a política da atual administração norte-americana.

Questionado sobre a meta de adotar este pacto ainda este ano, apesar da retirada norte-americana, Guterres manifestou confiança e afirmou: “Devo dizer que nada indica que um número significativo de países venha a abandonar o compacto na sequência da saída dos Estados Unidos”.

E destacou que o “projeto zero” do documento, elaborado pelo México e pela Suíça, “foi bem recebido pela generalidade dos países”.

Ainda sobre o documento, que as Nações Unidas desejam formalizar durante uma conferência intergovernamental a realizar em Marraquexe (Marrocos), em dezembro deste ano, Guterres frisou que espera que este pacto para as migrações “possa efetivamente contrariar algum discurso xenófobo (…) algum populismo que tem muitas vezes descrito as migrações de uma forma completamente negativa e que não corresponde à realidade”.

Realçou, no entanto, que este acordo “infelizmente não é uma convenção internacional, não terá valor legal impositivo” e como tal “tudo depende da vontade política dos governos” para o aplicar na prática.

Guterres foi distinguido com o grau de Doutor Honoris Causa numa cerimónia na Aula Magna, com a presença de diversas individualidades, nomeadamente o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro, António Costa, vários ministros, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e membros do corpo diplomático acreditado em Portugal.

O anúncio da atribuição do título honorífico ao ex-primeiro-ministro português foi feito em janeiro último pelo Instituto Superior Técnico (IST), onde o aluno António Guterres "teve um percurso académico excecional" e se licenciou em engenharia eletrotécnica em 1971.

Guterres foi deputado durante 17 anos, tendo-se estreado na Assembleia da República em 1976, e foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002.

Mais tarde, em 2003, depois de ter deixado o cargo de primeiro-ministro, foi professor convidado do IST, antes de assumir funções durante dez anos, entre 2005 e 2015, como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Desde 1 de janeiro de 2017 que Guterres é secretário-geral das Nações Unidas.

Marcelo enaltece percurso do governante "mais consensualmente amado" 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou esta segunda-feira o reconhecimento do país ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que disse ter sido o “governante mais consensualmente amado desde sempre em democracia”.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a atribuição do grau de doutor “honoris causa”, pela Universidade Clássica de Lisboa, proposto pelo Instituto Superior Técnico [onde foi aluno], a António Guterres foi uma “justíssima homenagem” a um “português e um homem universal”.

O Presidente da República discursava na cerimónia de doutoramento “honoris causa” do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, proposto pelo Instituto Superior Técnico, que decorreu na Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa.

Na cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o percurso estudantil, profissional e académico do ex-primeiro-ministro, considerando que é “a personalidade de longe mais qualificada” da sua geração, um “universitário maduro”, líder “inventivo e empenhado de movimentos cívicos e plataformas de entendimento”.

António Guterres foi o “governante nacional porventura mais consensualmente amado desde sempre em democracia, para além das paixões de uns e das mal querenças de outros que rodearam tantos dos demais”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, expressando o “reconhecimento em nome de todos os portugueses”.

O ex-presidente da República Jorge Sampaio, o primeiro-ministro, António Costa, o ex-ministro Jaime Gama, o atual presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal vários membros do Governo, deputados, entre outras personalidades, assistiram ao doutoramento “honoris causa” de António Guterres.

Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ainda o caráter “universal” dos portugueses e de António Guterres que “sonhou um Portugal aberto ao universo e lutou por um Portugal maior” e “constrói todos os dias um universo mais pacífico, mais fraterno e mais humano”.