Nos primeiros 100 dias Barack Obama já cumpriu a promessa de mudança. Não somente no campo das políticas, mas principalmente na imagem dos Estados Unidos e do seu presidente na opinião pública. Mais do que um político, o actual ocupante da Casa Branca é uma figura da cultura pop, provocando exaltação em todas as camadas sociais, económicas ou políticas. Barack Obama é hoje uma autêntica estrela.

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A cobertura mediática de Obama tem sido provavelmente a mais «macia» na era moderna da comunicação americana. Tudo em Obama é alvo de notícia, inclusive as mais fúteis, como o seu cão ou o guarda-roupa da sua esposa. O que em George W. Bush era motivo de piadas e intermináveis páginas de críticas, em Obama é apenas um parêntesis no meio da notícias positivas que tem recebido dos media. A Obama não são atribuídas gaffes e os seus percalços são considerados perfeitamente normais. Em 2008 Barack Obama foi elevado ao altar do mundo, e 2009 tem servido para entronizá-lo como símbolo deste novo culto: a Obamania. Apesar dos riscos inerentes a uma veneração excessiva, não deixa de ser positivo verificar que a América está de novo na moda.

Nestes primeiros 100 dias, Obama tem conseguido agradar à maioria dos americanos. Segundo uma sondagem publicada esta semana pela CNN, cerca de 63 por cento dos americanos aprovam o trabalho de Barack Obama. Ainda no mesmo estudo, 57 por cento dos inquiridos considera correctas as suas políticas. Este capital de confiança, que aumentou desde as eleições de Novembro, continua por gastar, e é expectável que Obama o vá usar¿ nos próximos tempos. Esta popularidade poderá ajudar Obama a adoptar medidas difíceis. Apesar de ter sido uma promessa de campanha, o aumento do contingente militar no Afeganistão passou incólume na opinião pública, e provavelmente teria havido enorme contestação se o presidente fosse outro. As próprias incursões no Paquistão para perseguir terroristas têm escapado ao radar da sempre vigilante comunicação social.

Mas apesar do frenesim em redor dos primeiros 100 dias de Obama, muito pouco se pode concluir sobre o que será o seu mandato. Por esta altura em 2001 havia queixas que a Administração Bush caminhava para um perigoso isolacionismo, e depois destacou-se precisamente pelo intervencionismo externo. Mas há alguns sinais na diplomacia americana que me despertam alguma preocupação. Em entrevista ao Expresso, Niall Ferguson interrogava-se se o tratamento demasiado benévolo que Obama está a oferecer aos adversários dos Estados Unidos não seria crivado de uma ingenuidade excessiva. Nestes três meses já assistimos a Administração americana a recuar perante a Rússia na questão do escudo anti-míssil, a enviar um sinal conciliatório ao Irão sem cedências visíveis de Ahmedinejad e a referência a um mundo sem armas nucleares no mesmo dia em que a Coreia do Norte testava um míssil de longo alcance. Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos não se alteraram com Obama na Casa Branca, mas esta nova abordagem, mais conciliatória e diplomática, provoca algumas dúvidas sobre a sua eficácia. Newt Gingrich disse na semana passada que já tinha visto este filme com Jimmy Carter, e com os resultados conhecidos. Mas comparar Obama com Carter é falacioso: o actual presidente é carismático, um excelente comunicador e intelectualmente brilhante, qualidades que faltavam ao 39º presidente.

A verdade é que estes primeiros 100 dias não irão definir a história do mandato de Obama. Os próximos 100 serão bem mais importantes. Estejamos atentos.