Têm em média 15 e são noruegueses. Durante 24 horas, muitos vão fazer de conta que são pais e mães sudaneses, que fogem da guerra e da fome e que querem chegar à Noruega para pedir asilo.

O exercício, a que já se sujeitaram 80.000 adolescentes noruegueses, foi importado da Dinamarca em 2004, mas ganhou um novo sentido com a onda de refugiados que tem invadido a Europa, que fogem da guerra na Síria, outros vindos do Iraque.

Num dos países mais ricos do mundo, em que os adolescentes convivem com os últimos gadgets a toda a hora e momento, uma das primeiras provações por que passam estes jovens debutantes é precisamente a entrega dos relógios e telemóveis, num antigo quartel. Depois, são agrupados em famílias de 20.

A AFP juntou-se a este grupo quando a jornada ia a meio. Os adolescentes foram acordados a meio da noite, por sirenes que avisavam que o campo de refugiados das Nações Unidas, onde pensavam ter encontrado abrigo, estava a ser atacado. Era preciso continuar a viagem de noite, a pé, com temperaturas de zero. “Detesto a minha vida”, confessava uma rapariga.

Um rapaz, em voz alta, pediu um “kebab e Netflix no banho”. Ao jantar comeram apenas uma pequena porção de arroz. Havia latas, mas com o prazo de validade expirado. A fome e a fadiga misturadas, fizeram com que a boa disposição dos adolescentes começasse a desvanecer.

Uma “alma nova” e a consciência do problema dos refugiados

No final desta jornada, estes jovens vão voltar para o calor das suas casas, comer as suas comidas preferidas e ter os seus smartphones de volta, mas, “eles saem daqui com uma nova alma”, disse Lasse Moen Sorensen, membro da Refugge Norway (Refugiados Noruega), uma organização não governamental.

Kenneth Johansen, fundador da Refugge Norway, deixou uma mensagem a estes jovens: “Nunca se esqueçam daquilo por que passaram, atravessando fronteiras, com os vossos pertences às costas. Porque isso é o que vivem 60 milhões de refugiados todos os dias”.

Para vocês, foi um jogo. Para eles, é o inferno na Terra todos os dias”, concluiu.

Uma das jovens participantes, Birgitte Solli, reconheceu, durante a reportagem: “Somos uns sortudos”. Um milhão de refugiados entrou na Europa em 2015.