A adolescente paquistanesa Malala Yousufzai admitiu, esta quarta-feira, em entrevista à BBC, que espera vir a servir o próprio país e, declarando-se inspirada pela antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, disse que poderia fazê-lo através da política. 

«Se a melhor forma de servir o meu país é através da política e de um cargo como o de primeira-ministra, então definitivamente vou escolher isso», disse a adolescente ao programa «HARDtalk», antes da cerimónia em que recebeu o Prémio Nobel da Paz, em Oslo, na Noruega.


Bhutto foi assassinada em 2007, quando fazia campanha para as eleições do ano seguinte, depois de ter sido duas vezes primeira-ministra do Paquistão.

«Quero servir o meu país e o meu sonho é que o meu país se torne um país desenvolvido e que eu veja todas as crianças ter educação», acrescentou Malala na mesma entrevista.


Educação para todas as crianças

Malala Yousafzai e o presidente da Marcha Global contra o Trabalho Infantil, o indiano Kailash Satyarthi, defenderam, esta quarta-feira, ao receber o Prémio Nobel da Paz em Oslo, o acesso à educação para todas as crianças do mundo.

«Porque é que dar armas é tão simples, mas dar livros tão duro?», questionou a adolescente paquistanesa.


 «Vou continuar esta luta até que eu veja todas as crianças na escola», declarou Malala que, aos 17 anos, se tornou na pessoa mais jovem a receber a distinção, que este ano foi igualmente atribuída ao ativista indiano Kailash Satyarthi, de 60 anos, dos quais 35 foram dedicados ao combate do trabalho infantil.

«Porque é que os países a que chamamos fortes são tão poderosos criando guerras, mas tão frágeis para trazer a paz? Porque é que dar armas é tão simples, mas dar livros tão duro? Porque é que construir tanques é tão fácil, mas construir edifícios tão difícil?», perguntou Malala na cerimónia realizada na câmara municipal de Oslo.


Durante o discurso, a adolescente dedicou algum tempo ao atentado que sofreu em 2012. A 9 de outubro desse ano, Malala Yousafzai sobreviveu a um ataque de talibãs paquistaneses, que a balearam na cabeça. Após ser operada no Paquistão, a jovem foi levada para o Reino Unido para receber tratamento, onde reside atualmente para continuar a educação em segurança.

«Tinha duas opções, uma era ficar em silêncio e esperar que me matassem. A outra era falar e depois matarem-me. Escolhi a segunda», afirmou a jovem, acrescentando que o ataque tornou-a «mais forte».


A adolescente sublinhou ainda que a sua história não é única e que «muitas raparigas» também partilham esta vivência, dirigindo-se às cinco amigas que convidou para a cerimónia, incluindo duas adolescentes que também sobreviveram ao mesmo ataque.

«Não sou uma voz solitária, represento muitas vozes. (…) Represento 66 milhões de raparigas que estão fora das escolas», disse ainda no discurso, no qual citou o Corão e recordou o ativista norte-americano Martin Luther King e o antigo Presidente sul-africano Nelson Mandela.


A adolescente vai destinar a parte que lhe cabe do valor pecuniário do Nobel da Paz (oito milhões de coroas suecas, cerca de 860 mil euros) para a construção de escolas no Paquistão, em especial no vale de Swat, região onde nasceu.

Contra a cultura do «silêncio» e da «passividade»

O outro laureado com o Nobel da Paz, o ativista indiano Kailash Satyarthi, fundador da organização Bachpan Bachao Andolan (Movimento para salvar as crianças, em português), também fez, no seu discurso, um vibrante apelo à defesa dos direitos das crianças.

Distinguido pelo combate contra o trabalho infantil em fábricas e oficinas na Índia e em outros países, onde as crianças são tratadas como escravas, Kailash Satyarthi criticou uma cultura de «silêncio» e de «passividade», defendendo a necessidade de promover um movimento mundial contra a exploração, a pobreza e a escravatura infantil.

«Recuso-me a aceitar que o mundo é muito pobre [para educar as crianças] quando uma única semana de despesas militares mundiais seria suficiente para colocar todas as nossas crianças nas salas de aulas», afirmou o engenheiro de formação, que já foi em diversas ocasiões alvo de agressões.

«Recuso-me a aceitar que as redes de escravatura sejam mais fortes do que a busca pela liberdade», acrescentou.


A organização de Kailash Satyarthi, que conta com uma rede de ativistas em mais de 100 países, afirma ter resgatado cerca de 80 mil crianças de fábricas e oficinas.

De acordo com a ONU, perto de 58 milhões de crianças com idade de frequentar a escola primária não são escolarizadas, enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que cerca de 168 milhões de crianças no mundo são forçadas a trabalhar.