O Comité Nobel norueguês, que atribui o Nobel da Paz, destituiu esta terça-feira o seu contestado presidente, Thorbjoern Jagland, para o grau de simples membro, uma iniciativa sem precedente na história centenária do prémio.

Presidente desde 2009, num período marcado pelas polémicas escolhas do presidente norte-americano Barack Obama, do dissidente chinês Liu Xiaobo e da União Europeia, Jagland vai ser substituído pela ex-líder conservadora Kaci Kullman Five, até agora vice-presidente do Comité.

Nunca desde 1901, ano em que foi atribuído o primeiro Nobel da Paz, um presidente que pretendesse ser reconduzido, como manifestou Jagland, foi destituído.

Kullman Five recusou pronunciar-se sobre as razões que levaram à não-recondução de Jagland. «Como é tradição, não vou fazer comentarários nem relatar o que foi dito durante a reunião» dos cinco membros do Comité, disse à imprensa.

A reunião, a primeira do ano, tinha por objetivo distribuir funções dentro do Comité e passar em revista as 276 candidaturas ao Nobel da Paz 2015. «Há um amplo consenso no Comité de que Thobjoern Jagland foi um bom presidente durante seis anos», acrescentou.

Jagland, ex-primeiro-ministro trabalhista, recusou fazer declarações.

A alteração na presidência do Comité foi possibilitada pela mudança da maioria política no Comité, cujos membros são nomeados pelo parlamento da Noruega e, como tal, refletem o equilíbrio de forças na assembleia, dominada pela direita desde 2013.

No entanto, a mudança de relação de forças no parlamento não implica forçosamente a mudança da presidência do Comité. O historiador Francis Sejersted, candidato conservador que dirigiu o Comité entre 1991 e 1999, foi reeleito apesar de a esquerda ter a maioria.

Uma das escolhas polémicas do Comité Nobel foi a atribuição do prémio da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo em 2010, que levou a China a congelar as relações políticas e comerciais com a Noruega.

Num artigo publicado há cerca de dois meses, o próprio Jagland escreveu que o governo norueguês da altura, de centro-esquerda, o «advertiu contra» a atribuição do prémio a Liu Xiaobo. «Não me pareceu problemático que o governo desse a sua opinião. O problema teria sido se o Comité aceitasse, sobretudo depois de sofrer pressão direta da China», afirmou.

Questionada, a nova presidente recusou qualquer ligação entre esse prémio e a destituição de Jagland. «Apoiei de todo o coração o prémio a Liu Xiaobo».

Jagland foi também criticado por acumular o cargo de presidente do Comité Nobel com o de secretário-geral do Conselho da Europa, para o qual foi nomeado em 2009.