As Nações Unidas deixam o alerta num novo relatório: o Boko Haram está a incrementar a utilização de crianças nos ataques suicidas que leva a cabo nos Camarões, na Nigéria e no Chade. Um quinto dos bombistas suicidas do grupo terrorista são crianças. A maioria – cerca de três quartos – são meninas, raptadas, drogadas e obrigadas a matar. Depois de raptadas e drogadas, as jovens são artilhadas com explosivos e levadas a matar.

Fati, 16 anos, recorda, em declarações à CNN, como tudo se processa: “Eles vão buscar-nos e perguntam ‘quem quer ser bombista suicida’? As meninas gritam ‘eu, eu, eu’. Elas lutam para serem bombistas suicidas."

A jovem diz que a luta muitas vezes acontece não por terem sido alvo de lavagens cerebrais, mas porque  estão cansadas dos permanentes abusos sexuais e da fome a que são expostas. Preferem morrer. E essa possibilidade, ironicamente, enche-as de esperança.

Querem uma fuga. Querem um escape.”

“Se lhes derem uma bomba, talvez elas encontrem um soldado e lhes contem que têm uma bomba. Então, talvez lhes consigam retirar a bomba e elas possam fugir”. Preferem arriscar.

Luta contra a superstição

Os Camarões são o país com o maior número de ataques suicidas envolvendo crianças com menos de oito anos. A situação começa a ser dramática em algumas comunidades.

“Como os ataques suicidas com crianças se tornaram tão comuns, há comunidades que começam a ver as crianças como ameaças à sua segurança”, diz Manuel Fontaine, diretor da UNICEF para a África Ocidental e Central.

“Estas superstições com as crianças tem consequências destrutivas: como pode uma comunidade recompor-se se afasta as próprias irmãs, filhas e mães?”

Os atentados levados a cabo pelo grupo aumentaram mais de 10 vezes, de 2014 para 2015. Nos sete anos de atuação do Boko Haram, mais de 17 mil pessoas perderam a vida, sobretudo no Norte da Nigéria, mas também nos países vizinhos.

Bring Back Our Girls

De acordo com um relatório da UNICEF, o conflito obrigou 1,3 milhões de crianças a abandonar as próprias casas. Muitas foram arrancadas de lá.

Há dois anos, mais de 200 meninas foram raptadas da escola na cidade de Chibok, na Nigéria. Até agora, apesar da campanha mundial Bring Back Our Girls, a que deram a cara figuras públicas e líderes mundiais, nenhuma foi ainda encontrada.

O destino das meninas de Chibok será muito semelhante ao das outras raparigas sequestradas pelo Boko Haram: são abusadas sexualmente e forçadas a casarem com os militantes do grupo.

A BBC conta a história de uma jovem de 17 anos, que agora vive com o filho num campo da UNICEF em Maiduguri, na Nigéria. Recusou casar com um dos militantes do Boko Haram. A solução foi raptarem-na.

Vieram ter comigo durante a noite. Trancaram-me numa casa durante mais de um mês e disseram-me: ‘quer queiras, quer não, já te casaste connosco’.”

O pesadelo continua mesmo depois de ter fugido. A jovem conta que agora é apontada, até por outras mulheres, que a acusam de ser uma “esposa Boko Haram”.