Um jornalista francês, que foi sequestrado pelo Estado Islâmico e mantido refém durante dez meses, publicou um vídeo no Youtube para implorar à comunidade internacional para não bombardear a Síria. Nicolas Hénin afirmou que ao fazê-lo estará a cair numa “armadilha”, que apenas irá beneficiar o grupo extremista.

O jornalista disse ainda que a única forma de combatê-lo seria através do diálogo com os sírios, nunca através de bombardeamentos. Afirmou que o que a comunidade internacional parece não compreender que é mais importante lutar pela estabilidade política no país do que contra algo que é o resultado dessa instabilidade.
 

“Neste momento, com os bombardeamentos, somos mais capazes de fazer com que as pessoas caiam nas mãos do EI. O que temos de fazer, e isto é mesmo a chave, é de comprometer-nos com a comunidade local”.


A mensagem surge numa altura em que a Inglaterra anunciou o primeiro ataque aéreo na Síria, a França já iniciou a campanha militar nesse sentido e depois dos EUA e da Rússia terem já feito dezenas de bombardeamentos neste território, nos últimos meses.
 

“Os ataques ao EI são uma armadilha. O vencedor desta guerra não será quem tiver o armamento mais recente, mais caro ou sofisticado, mas o partido que consiga ter as pessoas do seu lado. Assim que as pessoas tenham esperança numa solução política, o EI vai acabar por colapsar. Não vai ter mais sustentabilidade”.


Durante o vídeo, de cinco minutos, Nicolas Hénin recordou ainda o seu rapto e o dos seus colegas, alguns dos quais acabaram por falecer às mãos do EI. Um dos membros que pertencia ao gangue de sequestradores, Medhi Nemmouche, autor do ataque no Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014. O chefe era Mohammed Emwaz, que foi morto pelo exército britânico, de acordo com o The Guardian.
 

“Mohammed Emwazi era um dos meus raptores, foi aquele que matou os meus amigos. Não consigo parar de pensar nesses seis homicídios que cometeu, a olhar para a câmara. Homicídios de ocidentais. Quantos sírios ele matou e quem se preocupa com eles?”


O jornalista referiu ainda que a comunidade internacional também pode ser culpada pela radicalização dos sírios, pois tem falhado em apoiar as forças democráticas naquele país.
 

“Estamos apenas a dar combustível aos nossos inimigos e a fomentar o mistério e o desastre dos locais. Por cada sírio assassinado desde o início deste conflito, pelo EI, há entre sete e dez pessoas que são mortas pelo regime político. Eles dependem um do outro e nós não podemos combater um sem combater o outro”.


Para Nicolas Hénin, a crise atual dos refugiados e o aumento dos crimes de ódio contra os muçulmanos, desde os atentados de 13 de novembro, está também a contribuir para que os sírios se aliem ao EI.
 

“E provavelmente foi por isso que eles tentaram manipular o público, durante os ataques de Paris, para nos fazer fechar as nossas fronteiras e, talvez mais importante, fechar as nossas mentes”.