Do Papa ao primeiro-ministro italiano, todos pedem explicações para o que aconteceu no Mediterrâneo. Mas esta não foi, infelizmente, a primeira vez e Durão Barroso, antigo presidente da Comissão Europeia, lamenta agora a atitude dos países europeus relativamente à imigração ilegal. «As ajudas a refugiados são responsabilidades nacionais», disse o português que foi chamado de «assassino» quando visitou uma vez o porto de Lampedusa, em Itália.

O capotamento da embarcação sobrelotada com migrantes que no sábado partiram da Líbia em direção à costa italiana, mas que se virou no Mar Mediterrâneo a 27 quilómetros da costa líbia, está a gerar uma onda de indignação e críticas, principalmente a nível europeu.

Este pode vir a ser o maior desastre nas águas mediterrânicas, quando menos de três dezenas foram resgatados com vida num barco que, segundo um dos sobreviventes podia levar cerca de 900 pessoas.

Mas, esta foi a crónica de uma morte anunciada, com uma sucessão de naufrágios de gente que só queria uma vida melhor. Homens, mulheres e crianças que só queriam sobreviver. Numa fuga de conflitos e fome (principalmente com a instabilidade no Médio Oriente), encontraram a morte com a Europa de sonho ali tão perto.

«As ajudas a refugiados são responsabilidades nacionais, não é uma competência da União Europeia», esclareceu Durão Barroso aos microfones da TSF durante uma entrevista em Roma.

«Eu gostava que fosse [competência europeia], só que os países pretendem manter as suas prerrogativas nessa matéria e só quando têm dificuldades – como é agora o caso da Itália -, que não vêm só para Itália, querem chegar à Europa, é que os países se lembram de dizer que deve ser dividido por todos», defendeu-se o ex-presidente da Comissão Europeia.


Durão Barroso lembrou que a agência Frontex, uma instituição europeia de patrulha do Mediterrâneo, tem poucos meios.

«A Comissão Europeia não tem barcos, não tem helicópteros, não tem aviões. As instituições europeias não podem fazer nada se não forem os governos a por esses meios à disposição. Eu lembro-me quando a agência Frontex começou a trabalhar tinha cerca de 60 pessoas, é menos do que uma esquadra da polícia em Paris. Como é que se pode responder aos problemas da imigração ilegal, clandestina com esse número de pessoas? Temos que por ao serviço das instituições europeias, se queremos ter uma política europeia, temos que por meios suficientes. Meios humanos, financeiros, operacionais e logísticos. Isso agora começa a ser feito, mas não é suficiente».


Durão Barroso, que deixou o cargo há poucos meses, olha agora de fora para a tragédia no Mediterrâneo, que está a motivar reações de vários países europeus, exigindo uma ação concertada e forte da União Europeia. No entanto, na sua memória ainda estará aquela viagem ao porto de Lampedusa, em Itália, onde chegam a maioria dos migrantes que «têm a sorte» de sobreviver à travessia entre os dois continentes e para prestar homenagem às centenas de mortos de um naufrágio ocorrido havia dias.

Em Outubro de 2013, Durão Barroso, então presidente da Comissão Europeia, foi chamado de «assassino».

Os manifestantes que se encontravam no aeroporto gritavam «Vergonha» e «Vão ao centro de refugiados. Vejam como vivem estas pessoas. Assassinos!». 

Esta segunda-feira, a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Federica Mogherini, disse, no Luxemburgo, que «a UE não tem mais desculpas» e os Estados-membros deve acordar «uma verdadeira política migratória» para evitar novas tragédias no Mediterrâneo. 

O Governo português pediu, também esta segunda-feira, o rápido desenvolvimento de «esforços conjuntos da UE para uma resposta concertada» perante as mortes de imigrantes no Mediterrâneo, na sequência do naufrágio de uma embarcação junto à costa líbia.