Mais do que fazer vista grossa, o advogado Rodrigo Duterte, que tomou posse como presidente das Filipinas em Maio, é visto como o principal impulsionador do clima de medo e terror levado a cabo pela polícia e por esquadrões da morte organizados, a atuar sob a capa de um possível perdão presidencial.

Organizações de direitos humanos referem que, desde Maio, mais de 700 pessoas foram executadas. Exigem mesmo uma tomada de posição por parte das Nações Unidas, organização que o presidente Duterte parece ter em muito pouca conta.

F**k you UN [Nações Unidas]. Não conseguem sequer resolver a carnificina no Médio Oriente, não mexem um dedo face matança de pessoas negras em África. Portanto, calem-se todos”, são palavras ditas pelo agora presidente filipino durante a campanha eleitoral.

Conhecido por nem sempre medir as suas palavras, o presidente Duterte afirmou também nessa altura que uns cem mil compatriotas seus iriam morrer, na sua cruzada contra droga. E que com tantos cadáveres deitados às água da baía da capital, Manila, os peixes iriam engordar.

Mantém-se um silêncio ensurdecedor

Cerca de 300 organizações exigiram às Nações Unidas, através de uma carta aberta conjunta, que tomem posição urgente sobre o clima de terror em curso.

Estamos a pedir às organizações das Nações Unidas ligadas à luta contra as drogas que condenem publicamente as atrocidades nas Filipinas. Esta matança sem sentido não pode ser justificada como uma medida de combate ao tráfico”, afirmou Ann Fordham, dirigente do Consórcio Internacional de Políticas contra a Droga, citada pela imprensa internacional.

O seu silêncio é inaceitável, enquanto as pessoas estão sendo mortas nas ruas dia após dia”, acrescentou a ativista, referindo-se à ONU.

Nada, contudo, parece demover os bandos de “justiceiros” filipinos e até as forças policiais. E muito menos o presidente Duterte, que tem a sua cabeça a prémio por parte de reais traficantes. No dia da sua posse, não deixou de enfatizar a mensagem contra traficantes e toxicodependentes, o que em muito lhe valeu a eleição.

Se conhecem alguns viciados, vão em frente e matem-nos. Esperar que os seus próprios pais o façam pode ser muito doloroso”, afirmou então Rodrigo Duterte.

Execuções sob a cobertura da droga

Nos últimos dias, uma ex-ministra filipina da Justiça juntou a sua voz contra o terror instalado nas ruas das cidades.

Não podemos ganhar a guerra contra as drogas com sangue. Estaremos apenas a trocar o vício das drogas por um outro vício ainda pior”, afirmou Leila de Lima, atualmente dirigente de um organismo filipino de direitos humanos.

Para a ex-ministra, parece óbvio que a coberto da guerra contra as drogas, estão a ser levadas a cabo execuções sumárias.

Um dos casos que saltou para as atenções do mundo ocorreu na zona da capital, Manila, com a execução de Michael Siaron, um homem de 29 anos. Junto ao cadáver, os seus carrascos deixaram um cartaz dizendo “Pusher Ako” (Eu sou um traficante). Quando a sua mulher Jennelyn Olaires descobriu o corpo foi fotografada a chorar compulsivamente.

A viúva de 26 anos admitiu que o marido era toxicodependente, mas sublinhou que a pobreza extrema em que viviam não podia corresponder aos lucros de um traficante. E garantiu até que tinha votado em Duterte nas presidenciais.

Não preciso de compaixão pública. Não preciso que o presidente me diga nada”, disse a mulher, ouvida pela agência de informação Reuters, acrescentando desejar apenas que “sejam apanhados os verdadeiros infratores”.