Cidadãos sírios estão a morrer à fome em Madaya, uma cidade próxima da capital Damasco, onde 42 mil pessoas estão cercadas há quase seis meses por forças do regime de Bashar al-Assad e pelo Hezbollah, grupo militar libanês aliado. A ONU anunciou, esta quinta-feira, que o Governo sírio concordou em aligeirar o cerco e abrir as portas para a entrada de ajuda humanitária em Madaya, onde "há pessoas a morrer à fome e a ser mortas quando tentam fugir". A ajuda vai chegar também a Fua e Kafraya, outras duas cidades que se encontram em situação semelhante.

De acordo com a BBC, os relatos que chegam de Madaya dão conta de famílias a tentar sobreviver alimentando-se de folhas e até de cães e de gatos. As redes sociais têm sido determinantes na chamada de atenção para Madaya, com a partilha de várias imagens em que surgem crianças transformadas em autênticos esqueletos, e outras, mais velhas, transportadas em carrinhos de bebé por já não se conseguirem deslocar pelos próprios meios.

 
Com a assinatura em setembro de 2015 de um acordo para permitir a entrada de ajuda e a retirada dos civis e feridos, acreditava-se que as condições iriam melhorar. Mas Madaya só recebeu ajuda uma vez em três meses. E a situação hoje é terrível, contam os habitantes, os ativistas e as agências humanitárias.

"Já não há gatos ou cães vivos na cidade. Até começam a escassear as folhas das árvores que temos comido", disse ao canal Al-Jazeera, por telefone, um dos habitantes da cidade, Abu Abdul Rahman. "Descrever a situação como sendo trágica é pouco quando vemos a realidade no terreno”, acrescentou.


"Não há nada para comer. Estou dois dias à base de água", afirmou por telefone à AFP Momina, uma mulher de 32 anos. "Só queremos que nos digam se a ajuda vai chegar ou não, porque aqui não há nada", declarou.
 
"A vida tornou-se trágica. Como chegam poucas coisas, os alimentos são muito caros", afirmou Mohamad, outro habitante. "Uma caixa de leite pode custar 100 dólares (91 euros), um quilo de arroz 150 dólares (137 euros)", disse ainda. Por isso "esquecemos o sabor do pão", acrescentou.
 
 
Em Madaya falta tudo, resume Pawel Krzysiek, porta-voz do Comité Internacional da Cruz Vermelha, que entrou na localidade em outubro.
 

"As pessoas estão há muito tempo sem alimentos básicos, sem medicamentos básicos, sem eletricidade nem água (...) Vi a fome nos olhos delas", afirma.


"Suplicavam por leite para bebés" quando o comboio de ajuda humanitária chegou, acrescenta. "Diziam que as mães não produzem mais leite por estarem desnutridas (...) Não há maneira de alimentar os recém-nascidos e os bebés", conclui.

 
Madaya não é caso único. De acordo com as Nações Unidas, há mais de um milhão de sírios em zonas a que já não chega ajuda alimentar ou de medicamentos e descrevem a situação em que se encontram determinadas localidades como "extremamente alarmantes".

A ONU afirma que todos os lados envolvidos no conflito no país vêm lançando mão de táticas de guerra e isolam cidades, o que viola leis internacionais de direitos humanos.

Uma reportagem da agência Reuters conta que alimentos e medicamentos raramente podem entrar em zonas do país que estejam sob o controlo de rebeldes, sendo bloqueados deliberadamente pelo exército de Bashar Al-Assad no âmbito da estratégia da "Fome até à Submissão".

A guerra civil na Síria já dura há mais de cinco anos. Só em 2015,mais de 55 mil pessoas morreram no país, 2500 das quais eram crianças.