O homem que, em agosto de 2014, apareceu no vídeo da decapitação do jornalista norte-americano James Foley foi  identificado como Mohammed Emwazi. A identidade do carrasco ao serviço do Estado Islâmico foi tornada pública na última quinta-feira. Desde então, as informações sobre o jovem têm surgido a conta-gotas nos meios de comunicação internacionais. Além de James Foley, Mohammed Emwazi terá sido responsável pela morte de outros dois reféns norte-americanos, dois britânicos e dois japoneses, embora esta não seja uma informação confirmada.
 
Mohammed Emwazi nasceu em 1988, no Kuwait. Mudou-se com a família para o Reino Unido quando tinha apenas seis anos e cresceu num bairro de classe média na zona norte de Londres.

  Bairro onde vivia a família Emwazi

Foi educado numa escola cristã, a St. Magdalene Church of England Elementary School. Na adolescência, era fã do grupo de música pop britânico «S Club7» e adepto do Manchester United. De acordo com a revista «Time», os jogos de computador faziam parte dos seus tempos livres e gostava particularmente de «Duke Nukem: time to kill», assim como a literatura juvenil mais virada para o fantástico, como o livro «How to kill a monster».

   
Os vizinhos garantiam que a família Emwazi era religiosa, mas não radical. O jovem era descrito como educado, sossegado e estudante aplicado. Concluiu os estudos secundários em 2006, na Quintin Kynaston Community Academy, e licenciou-se em 2009, em Engenharia Informática na Universidade de Westminster.


 
Fluente em inglês e árabe, sempre terá ambicionado construir uma carreira nos países árabes.
 
Não se sabe ao certo quando o jovem educado e que fazia questão de se vestir bem se terá tornado um radical islâmico. De acordo com o «The Times», os serviços secretos britânicos, o MI5, estão convencidos que Mohamed Emwazi foi arrastado para um grupo de extremistas que apoiam o Al-Shabaab, um grupo com sede na Somália. O MI5 acredita que os recrutadores do grupo aproveitavam jogos de futebol para realizar reuniões secretas.
 
No verão de 2009, Mohamed e dois amigos viajaram para a Tanzania, naquelas que seriam umas férias num safari. Foram detidos na capital do país, Dar es Salaam, mas Mohamed sempre negou que tivesse usado a viagem para chegar à Somália, separada da Tanzania pelo Quénia.
 


«O melhor empregado que já tivemos»

 
O grupo de amigos foi deportado para Amesterdão e depois para Londres. Mohamed terá sido interrogado por agentes de unidades anti-terroristas nas duas cidades. Assegura que, na altura, um agente do MI5 o tentou recrutar, mas ele recusou. Diz que foi ameaçado por esse agente, que lhe prometeu que teria «uma vida difícil» daí em diante.
 
Em setembro de 2009, viajou para o Kuwait. De acordo com emails trocados com Assim Qureshi, diretor da CAGE, um grupo de advogados especializados em direitos humanos sediado em Londres, tinha contrato de trabalho com uma empesa de novas tecnologias no país.

   
De acordo com o «The Guardian», a empresa onde trabalhou no Kuwait descreve-o como «o melhor empregado» que já teve. Mohamed tinha então 21 anos e trabalhava como comercial. O antigo patrão mostra-se incrédulo.
 

«Era muito bom com pessoas. Calmo e decente. Chegou até nós batendo à nossa porta e entregando-nos o CV».

 

«Como pode alguém tão calmo e sossegado como ele tornar-se na pessoa que vimos nas notícias? Não tem lógica que ele possa ser essa pessoa».

 
O antigo patrão conta, ainda assim, que os colegas estranharam que ele fizesse tanta questão de trabalhar no Kuwait, quando muitos tentavam fazer o percurso contrário.
 


Casamento cancelado

 
«Jihadi John» trabalhou na mesma empresa até simplesmente desaparecer, em 2010. Terá sido nessa altura que tentou regressar ao Reino Unido. Primeiro em maio, para uma visita de oito dias e depois em julho.  
 
De acordo com a «Time», quando, em julho de 2010, tentou regressar, com planos para se casar no Kuwait, foi barrado no Aeroporto de Heathrow, interrogado durante seis horas e o seu visa para regressar ao Kuwait foi recusado. Queixou-se na altura ao CAGE de agressão violenta por parte de um agente, durante o interrogatório em Heathrow. Queixou-se também que foi perseguido e intimidado pelos serviços de segurança durante um ano. De acordo com os emails que trocou com o CAGE, o MI5 aproximou-se da sua noiva no Kuwait e assustou-a e à sua família. O casamento foi, por isso, cancelado.
 
Em 2012, Mohamed candidatou-se a várias escolas de línguas na Arábia Saudita para ensinar inglês no país. As candidaturas foram recusadas. No início de 2013, alegadamente por conselho do pai, mudou de nome para Mohamed al-Ayan, numa tentativa de conseguir viajar sem os problemas que tinha tido anteriormente. Voltou a tentar viajar para o Kuwait, mas voltou a ser barrado.
 


O guarda «mais ponderado» do Estado Islâmico

 
Em 2013, deixou a casa dos pais, em Londres, e, três dias depois, os pais apresentaram queixa na polícia pelo seu desaparecimento. Quatro meses depois disso, a polícia visitou a casa da família e pai terá dito que mantinha com o filho parcos contactos, estando convencido que estava na Turquia a ajudar refugiados. A polícia terá então informado os pais que Mohamed tinha viajado para a Síria.
 
«Jihadi John» teria como missão a guarda de reféns ocidentais às mãos do Estado Islâmico. De acordo com a comunicação social, os reféns descrevem-no como calmo, inteligente e o «mais ponderado» dos guardas do Estado Islâmico.

 Imagens retiradas dos vídeos onde alegadamente apareceu Jihadi John

Um antigo combatente do Estado Islâmico ouvido pela BBC conta que privou com Mohamed Emwazi e descreve-o como «estranho». Ao contrário de outros britânicos, conta, ele fazia questão de aparecer nos vídeos do EI.
 
«Era frio. Não falava muito. Ele não se juntava a nós nas orações. Só rezava com os seus amigos… Os outros britânicos rezavam a par connosco, mas ele era estranho», relata o jovem entrevistado pela BBC, identificado como Abu Ayman.
  

«Os outros irmãos britânicos cumprimentavam-nos quando se cruzavam connosco na rua, mas ele virava-nos a cara».

 

«Os combatentes britânicos andavam sempre juntos, mas ele não se juntava a eles».




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