Os negócios de Portugal com Angola, Guiné Equatorial e Moçambique, «mesmo que choquem os defensores dos direitos humanos», são destacados pelo jornal francês Le Monde, a propósito da cimeira União Europeia/África, que hoje terminou em Bruxelas.

Na sua edição de quarta-feira, o jornal publica um artigo assinado por Claire Gatinois, enviada especial a Lisboa, com o título «Os recursos de Angola semeiam a confusão em Portugal», em que relata que «Portugal já pesou os ganhos que representam as suas ex-colónias para a sua economia, desgastada pela crise e pela austeridade», acrescentando: «mesmo que às vezes isso choque os defensores dos direitos humanos».

A jornalista francesa recorda que o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, esteve recentemente em Moçambique, «ricamente dotado de gás», para assinar 16 acordos comerciais e que o país está a «também a fortalecer os laços» com a Guiné Equatorial, «grande produtor de petróleo» que poderá entrar este ano para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), depois de esta adesão ter sido recusada devido ao desrespeito pelos direitos humanos naquele país.

O Presidente equato-guineense é um dos chefes de Estado mais ricos de África, mas no seu país, uma em cada dez crianças morre antes dos cinco anos, além de um filho do governante estar a ser investigado em França por suspeita de lavagem de dinheiro, elenca a jornalista no texto, rematando: «Mas pouco importa. O Governo da Guiné Equatorial assinou um acordo para comprar uma participação no Banif, banco português nacionalizado».

Sobre as relações com Angola, um dos países mais corruptos do Mundo, segundo a Transparência Internacional, e a quem Portugal «escancara os braços», a autora refere que Luanda investiu em mais de 20 empresas portuguesas, algumas cotadas na Bolsa, na área do petróleo, na banca, na imprensa e no setor agroalimentar, citando Celso Filipe, autor de um livro sobre a investigação ao poder financeiro de Angola em Portugal.

Segundo o autor, dez a 15 milhões de euros foram injetados na economia portuguesa e a maioria dos rostos destes investimentos são de personalidades próximas do Presidente, José Eduardo dos Santos, que antes da sua reeleição em 2012 procurou criar uma «boa reputação» para Angola.

Já o jornalista e ativista angolano Rafael Marques acusa Portugal de ser «uma máquina de lavar dinheiro roubado do povo de Angola».

Para o responsável em Portugal da Transparência Internacional, João Paulo Batalha, com a crise, Portugal «teve a oportunidade de limpar a corrupção no país, mas optou por exportá-la [através da implantação de empresas portuguesas em Angola, em particular na construção civil], e de eliminar as barreiras da integridade», escolhendo «fazer negócios com qualquer um».

«Nós temos necessidade do dinheiro de Angola, mas Angola precisa de nós», considera Celso Filipe, que afirma ainda: «Há sem dúvida um pouco de hipocrisia, mas não é só em Portugal. A família dos Santos investido noutros lugares na Europa».