O constitucionalista moçambicano Gilles Cistac foi mortalmente baleado, nesta terça-feira, por desconhecidos no centro de Maputo, informou a imprensa moçambicana. 
 
O académico de origem francesa foi atingido por vários disparos na avenida Eduardo Mondlane, no coração da capital, tendo sido encaminhado para o Hospital Central de Maputo, mas não resistiu aos ferimentos.
 
De acordo com o jornal moçambicano «A Verdade», os disparos de metralhadora aconteceram quando se encontrava na viatura que o iria transportar, depois de ter tomado o habitual pequeno-almoço no café Café ABFC, no Bairro de Polana.
 
O motorista assistiu ao ataque, mas não foi atingido pelos disparos de desconhecidos, que se puseram em fuga. A polícia disse que segue a pista de quatro suspeitos, três negros e um branco, e que foi este último quem abriu fogo contra Cistac.
 
O Governo moçambicano já reagiu e considerou o baleamento do constitucionalista «um ato macabro», tendo dados instruções ao Ministério do Interior para que sejam encontrados os responsáveis para que sejam «exemplarmente punidos».
 
«O Governo, reunido em mais uma sessão, considera que este é um ato macabro e por isso condena-o veemente e instruiu o Ministério do Interior para continuar as perseguições, com vista a neutralizar e capturar os autores», disse António Gaspar, conselheiro da presidência moçambicana, em nome do Conselho de Ministros, citado pela Lusa.
 
O líder do MDM (Movimento Democrático de Moçambique), terceiro maior partido moçambicano, disse que o constitucionalista Gilles Cistac foi assassinado por encomenda, após pronunciamentos que «irritaram uma elite política intolerante».

«Não tenho dúvidas nem reservas de que este assassinato é uma encomenda», afirmou Daviz Simango, em declarações à Lusa, considerando o atentado contra Cistac «uma grande tragédia», cujo esclarecimento imediato se tornou num «imperativo nacional».

Segundo Simango, «os seus pronunciamentos constitucionais e administrativos  irritaram muita elite política, que é intolerante, demagógica e não entende que só se pode construir uma sociedade pela diferença e se cada um se puder expressar de forma livre».

«Tudo fizeram para silenciar um homem justo, um homem que procurou que todos nos tivéssemos uma visão clara do que é isso do Estado de Direito», declarou Daviz Simango, também presidente do município da Beira, segunda maior cidade moçambicana, sem precisar o alvo das acusações.

O líder partidário disse que os órgãos do MDM e os munícipes da Beira estão «tristes, chocados e magoados por este assassinato bárbaro».

Simango recordou ainda que Gilles Cistac «dedicou grande parte da sua vida a formar moçambicanos, a criar a massa intelectual e, com o seu saber, contribuiu para que Moçambique possa criar as bases de um Estado de Direito de facto».

O académico de origem francesa era um dos principais especialistas em assuntos constitucionais de Moçambique e, em várias ocasiões, manifestou opiniões jurídicas contrárias aos interesses do Governo e da Frelimo, partido no poder.

Em entrevistas recentes, Cistac considerou que não há impedimentos jurídicos à pretensão da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) de criar regiões autónomas no país, contrariando declarações opostas de quadros da Frelimo.