Dois antigos secretários de Estado britânicos estão acusados de oferecer a sua influência política para conseguir favores para uma empresa chinesa a troco de dinheiro.

O «Daily Telegraph» e o Channel 4 lançaram uma investigação conjunta para investigar a integridade de alguns políticos, com jornalistas a fizerem-se passar por representantes de uma empresa chinesa fictícia que eventualmente iria precisar de serviços de políticos.

A investigação conjunta «apanhou» os dois ex-secretários dos Negócios Estrangeiros, Jack Straw e Sir Malcom Rifkind, com uma câmara oculta a admitirem estarem dispostos a alguns «favores» por 5000 libras por dia (cerca de 6800 euros), declarações que alegadamente violam o código de conduta dos membros do parlamento britânico.

Jack Straw, um dos membros mais antigos do Partido dos Trabalhadores (Labour), diz que no passado conseguiu usar a sua influência para mudar normas da União Europeia como favor a uma empresa, “trabalho” pelo qual recebeu 60 mil libras (mais de 81 mil euros) por ano. Straw diz, ainda, que conseguiu convencer também o primeiro-ministro ucraniano a mudar uma lei pela mesma firma.

Segundo o Telegraph, a empresa foi a ED&F Man, uma empresa de produtos agrícolas com uma refinaria de açúcar na Ucrânia, que seria prejudicada por uma nova lei do governo. Straw terá, alegadamente, reunido com oficiais de Bruxelas e «arranjado» um encontro com o presidente ucraniano da altura, que acabaria por deixar cair a lei.

O ex-secretário de Estado e atual deputado já suspendeu quaisquer atividades ligadas ao partido e disponibilizou-se a responder à Comissão Parlamentar dos padrões. Por sua vez, o Partido dos Trabalhadores já descreveu as alegações como «perturbadoras».

Ambos os ex-ministros concordaram em entrar em conversações com a empresa chinesa «criada» pelo «Daily Telegraph» e o Channel 4, que supostamente estaria interessada em expandir os seus negócios na Europa.

Rifkind esteve na «sede» da empresa por duas vezes, numa das quais informou os «representantes» que conseguiria encontrar-se com «qualquer embaixador que quisesse».

«Todos me receberão pessoalmente. Isso é [um tipo de] acesso que pode ser útil», disse.


Num segundo encontro, o ex-secretário sugeriu que poderia escrever a ministros pela companhia, ocultando o nome da mesma.

Os dois políticos podem alegar que não quebraram a conduta parlamentar, pois não ficou provado que as atividades não seriam declaradas. Como explica a BBC, o «segundo emprego» não é proibido desde que não colida com o código de conduta da profissão e os rendimentos declarados. 

O porta-voz de Straw já afirmou que não há nada de inapropriado em o ex-secretário usar os seus «conhecimentos e experiência» adquiridos enquanto deputado. O porta-voz diz que Straw sempre foi franco com todos sobre os trabalhos realizados para a ED&F Man, incluindo para com o primeiro-ministro ucraniano da altura, Mykola Azarov. Quanto às 5000 libras pedidas como pagamento, o porta-voz esclareceu que se tratou de um exemplo e não de uma negociação.

Já Rifkind disse que nunca aceitou, nem aceitaria, qualquer trabalho do género enquanto for deputado, insistindo que quando disse que escreveria a ministros, só procuraria informação que já fosse do domínio público.

Na sequência da reportagem, o Partido Conservador anunciou esta manhã a suspensão de Malcolm Rifkind e uma investigação interna do partido.

No entanto, Rifkind já afirmou que espera ser readmitido «rapidamente».

O líder da oposição já pediu a David Cameron que deve propor o «fim» dos «segundos empregos» para as figuras políticas.

A investigação terá envolvido 12 deputados, seis dos quais não responderam à proposta feita pelos jornalistas. Apenas um disse que os seus contactos não «estão à venda»