No passado dia 6 de maio, o governo do Quénia anunciou, em comunicado, a decisão de não acolher mais refugiados no país e de encerrar todos os campos no território, incluindo aquele que é o maior do mundo, em Dadaab, onde se encontram mais de 300 mil pessoas. Em causa estariam "fardos muito pesados", de natureza económica, securitária e ambiental, para o país. Três dias depois, as Nações Unidas pediram ao governo queniano que reconsiderasse os planos, mas hoje foi sentenciada a confirmação final.

Numa conferência de imprensa, Joseph Nkaissery, Ministro do Interior, afirmou que já estavam a ser definidos prazos para encerrar os campos, além da libertação imediata de dez milhões de dólares, quase nove milhões de euros, para o arranque inicial do processo. Nkaissery adiantou, ainda, que o governo tinha igualmente começado o fecho do campo de Dadaab.

No Quénia, existem atualmente 600 mil refugiados. Só em Dadaab, a terceira maior cidade do país (a seguir à capital, Nairobi, e Mombaça) situada perto da fronteira com a Somália, estão cerca de 350 mil, a grande maioria de nacionalidade somali, repartidos por cinco campos.

Na decisão do executivo queniano de encerrar o complexo, formado nos anos 1990, está a convicção de que este se tornou num "berço" para os militantes do Al-Shabaab, um grupo radical islâmico responsável por vários atos terroristas no país durante os últimos cinco anos. Aliás, membros do governo alegaram que, tanto o ataque num centro comercial de Nairobi em 2013, como o atentado na Universidade de Garissa no ano passado, teriam sido planeados em campos maioritariamente ocupados por refugiados somalis.

Estes locais também têm sido alvo de críticas por supostas práticas de contrabando de carvão e açúcar que, em última instância, serviam para financiar o grupo terrorista. 

No entanto, esta não é a primeira vez que o Quénia anuncia a decisão de fechar os campos. Aconteceu pelo menos duas vezes no ano passado e ainda em 2013. Foi nesse mesmo ano que o país assinou um acordo tripartido com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e a Somália, com vista a repatriar refugiados voluntariamente. Desde então, o número de pessoas em Dadaab diminuiu de meio milhão para os atuais 350 mil. Em janeiro passado, o ACNUR falou do difícil objetivo de recolocar mais 50 mil refugiados ao longo de 2016, devido às insurgências contínuas do Al-Shabaab na Somália e a escassez de serviços públicos.

Desta feita, além do encerramento já confirmado dos campos e do processo de repatriação voluntário, adianta a Reuters Africa que o governo do Quénia ainda não confirmou quais serão as novas medidas para recolocar os 600 mil refugiados presentes no território, oriundos do Sudão do Sul, Etiópia ou Uganda, entre outros.

Os maiores campos de refugiados no mundo

A realidade de Dadaab acaba por ser a realidade de outros pontos do globo. Entre os maiores complexos do mundo que albergam refugiados, a seguir à estrutura na cidade queniana, seguem-se locais como Dollo Ado, na Etiópia, com cerca de 210 mil pessoas; e Ain Al-Hilweh, no Líbano, com 120 mil.

À luz da recente crise migratória na Europa, os denominados "pontos-quentes" de Idomeni, na Grécia, e Calais, em França, são os maiores do continente, onde se encontram mais de 17 mil refugiados.

Porém, quando se fala nos países que possuem os maiores campos, isso não implica ter a maior população de refugiados também. Por exemplo, no Quénia, os 600 mil refugiados representam apenas uma pequena percentagem da população total de 44 milhões de habitantes. Em países como a Jordânia, o contexto é diferente, dado que o país alberga 2,8 milhões de refugiados, números que correspondem a um terço da população. Uma percentagem proporcional ao caso do Líbano, onde existem 1,6 milhões de migrantes atualmente.