O exército e a polícia federal do México resgataram mais de 500 crianças que se encontravam num orfanato no estado de Michoacán, onde viviam em condições deploráveis e eram vítimas de abusos sexuais, informaram fontes oficiais.

O procurador-geral mexicano, Jesús Murillo, disse em conferência de imprensa que a operação foi realizada no orfanato «A Grande Família», na cidade de Zamora, depois de várias denúncias.

O centro, que funcionava há 40 anos, tinha desde recém-nascidos até maiores de 40 anos que dormiam no chão, pediam esmolas e sofriam abusos sexuais.

As autoridades detiveram a dona do orfanato, Rosa del Carmen Verduzco, conhecida como «Mamá Rosa», e oito pessoas que trabalhavam para ela. Os detidos estão a ser interrogados pelo Ministério Público por suspeitas de maus-tratos e agressões sexuais. Sendo que deverão seguir-se novas acusações à medida que forem sendo conhecidos mais pormenores.

Tomás Zerón, titular da Agência de Investigação Criminal da Procuradoria-Geral da República, disse também em conferência de imprensa que a incursão das forças federais foi o resultado de «pelo menos 50 denúncias contra os administradores da casa, principalmente a senhora Rosa del Carmen Verduzco, por privação ilegal da liberdade».

Tomás Zerón sublinhou que a casa de acolhimento é constituída por um internato que abriga até 600 pessoas. Para além das 462 crianças e jovens, entre as quais seis bebés, foram também libertados 134 adultos.

«Durante a investigação foram ouvidas testemunhas e vítimas que tiveram relação com [o orfanato] A Grande Família e que relatam diversos abusos físicos e psicológicos por parte de Rosa del Carmen Verduzco e de alguns funcionários», afirmou.

Entre os abusos, «os internos eram obrigados a pedir dinheiro em casas e nas ruas, eram alimentados com comidas estragadas, tinham que dormir no chão no meio da imundice, sofriam abusos sexuais e eram proibidos de deixar as instalações», acrescentou.

De acordo com os primeiros elementos da investigação, os bebés que nasciam no orfanato eram registados como filhos de Verduzco, o que não permitia aos pais biológicos decidir sobre o futuro das crianças.

Na conferência de imprensa, o procurador Jesús Murillo e também o governador do estado de Michoacán, Salvador Jara, contaram o caso de uma mulher que disse ter pedido para sair do orfanato quando cumpriu 18 anos. A fundadora de «A Grande Família» não só negou o pedido, como lhe retirou os dois filhos, que nasceram na instituição e também nunca tinham saído das instalações, e manteve-a em cativeiro mais 13 anos, até à operação de terça-feira, realizada por agentes da polícia com a ajuda do Exército.

Na comunicação que fizeram ao país, ao início da noite de terça-feira, as autoridades não descartaram a hipótese de envolvimento de grupos criminosos na exploração dos menores. Há suspeitas de que os abusos eram cometidos desde a criação de «A Grande Família», há 40 anos, mas o facto de só agora o caso ter sido denunciado aponta para a existência de uma rede que levava as vítimas a manterem-se em silêncio.

O governador de Michoacán mostrou-se «consternado» com a descoberta. Salvador Jara revelou que as denúncias originais, sobre cinco crianças, foram apresentadas há mais de um ano às autoridades.

Este é já considerado um dos piores casos no México de abusos sexuais a crianças ao cuidado de uma instituição.