O Estado Islâmico tem vindo a recrutar um número muito elevado de crianças, muito para além do estimado. Um estudo de três investigadores da Universidade da Geórgia, levado a cabo no último ano, aos canais de comunicação do grupo extremista, revela que o Estado Islâmico não está apenas a usar as crianças agora, mas a criar uma nova geração de jihadistas. Um rasto que se pode tornar cada vez mais difícil de apagar.

São vários os casos de crianças filmadas em vídeos de decapitações. O uso de crianças soldados por grupos de violência extrema não é uma novidade. Por exemplo, “os talibãs têm as chamadas escolas” para formar bombistas. O que este trabalho, publicado na página do Centro de Combate ao Terrorismo, vem agora revelar é que a estratégia de recrutamento e propaganda do Estado Islâmico não está a ser pensada apenas a curto prazo.

Entre janeiro de 2015 e janeiro de 2016, a investigação contou “89 casos” de crianças ou adolescentes elogiadas como mártires nos canais de comunicação do Estado Islâmico, ou seja, todos aqueles que são identificados como menores de 18 anos de acordo com parâmetros médicos. Destes, “51%” morreram alegadamente no Iraque e “36%” na Síria. A maioria dos jovens seria de “nacionalidade síria”.

 

 

Fonte: CTC Sentinental

*Outros países: Iémen, Arábia Saudita, Tunísia, Líbia, Reino Unido, França, Austrália e Nigéria

Dos casos identificados, “39%” morreram em ataques bombistas e 30% perderam a vida em combates. De realçar que quase metade destas crianças ou adolescentes morreram em operações do Estado Islâmico contra forças de segurança estatais.

 

 

Fonte: CTC Sentinental

*Inghimasi: Com treino militar, armado com armas e explosivos; age sozinho ou concertado com grupo

 

Metade das fotografias veiculadas pelo Estado Islâmico como propaganda revelam as crianças e adolescentes “a sorrir”, rapazes, muitos deles vestidos com roupas de tipo militar e com “armas” nas mãos. Num quinto das imagens, a bandeira do Estado Islâmico está presente.

“As crianças soldados de hoje, podem bem ser os adultos terroristas de amanhã”

As conclusões preliminares deste estudo mostram que a utilização de crianças em ataques suicidas “aumentou” em janeiro de 2016, comparando com janeiro de 2015. No entanto, ao contrário de outros grupos extremistas que usam as crianças muitas vezes como um último recurso, como forma de repor soldados nas frentes de batalha face às baixas registadas entre a população de guerrilheiros adultos, no Estado Islâmico, o recurso às crianças tem um papel “taticamente atrativo”. O estudo só conseguiu recolher dados sobre os adultos mortos entre meados de novembro de 2015 e janeiro de 2016. Em 73 dias morreram 114 homens, mas o número de adultos nas fileiras do Estado Islâmico também é maior. 

O relatório prevê um aumento dos ataques com recurso a crianças perpetrados pelo Estado Islâmico. Em entrevista à CNN, Mia Bloom afirmou que “é interessante o acesso dado pelos pais à organização”, ou seja, “estas crianças não estão a ser raptadas ou coagidas”. Mia Bloom recorda o caso em que a criança “até se despede dos pais”.

Os investigadores Mia Bloom, John Horgan e Charlie Winter chamam a atenção que “as crianças soldados de hoje, podem bem ser os adultos terroristas de amanhã”, obrigando a repensar a estratégia de combate aos jihadistas a longo-termo, bem como as políticas de reabilitação dos jovens que conseguem escapar das fileiras do Estado Islâmico.