Um mês após a decapitação do norte-americano Peter Kassig pelo Estado Islâmico (EI), sabe-se agora que os Estados Unidos tentaram salvá-lo.

O EI anunciou a sua morte a 16 de novembro, com um vídeo da sua decapitação. Peter Kassig era um ranger americano que fundou uma organização humanitária para ajudar os refugiados que fugiam do conflito da Síria e que foi capturado pelo EI em outubro de 2013.

Revelações agora feitas dão conta de que os Estados Unidos autorizaram negociações para se tentar libertar o refém norte-americano, Abdul-Rahman Kassig. No entanto, as negociações falharam e Peter Kassig, assim chamado antes de se converter ao islamismo, acabou morto pelos militantes do EI.
 
Um advogado norte-americano contou à BBC que persuadiu dois clérigos muçulmanos, do Médio Oriente, a contactar com o EI. No entanto, as negociações fracassaram quando uns dos clérigos foi detido na Jordânia por promover ideias jihadistas. O FBI confirmou à BBC que estava ciente das negociações, mas não forneceu mais pormenores.
 
Stanley Cohen, um advogado de Nova Iorque, contou que lhe foi pedida ajuda para salvar um veterano norte-americano. Cohen, que já tinha representado o Hezbollah, o Hamas e o cunhado de Osama Bin Laden, disse que discutiu os planos com o FBI antes de viajar para o Kowait e para a Jordânia como um cidadão comum. Uma vez aí, o advogado encontrou-se com os religosos com ligações à al Qaeda e convenceu-os a intervir em nome de Kassig.
 
Um deles, Abu Muhammed al-Maqdisi, é considerado como o mais influente estudioso jihadista do mundo, enquanto o outro, Abu Qatada, já foi denominado por um juiz espanhol como «embaixador espiritual» da  al Qaeda na Europa.
 
Maqdisi, o líder espiritual do movimento jihadista da Jordânia e Abu trabalharam em conjunto para ajudarem a salvar Kassig. O objetivo dos clérigos não era apenas libertar o norte-americano, mas conseguirem que o EI deixasse de assassinar reféns civis, uma tática que «horrorizou» muitos jihadistas e aprofundou a contenda teológica entre o grupo e a al-Qaeda.
 
Stanley Cohen foi para o Médio Oriente a 13 de outubro e elaborou um protocolo para o FBI e as autoridades da Jordânia assinarem, autorizando Maqdisi a contactar o seu antigo estudante, Turki al-Binali, chefe «estudioso de armas» no Estado Islâmico.
 
Maqdisi chegou a conseguir estabelecer contacto com os líderes do Estado Islâmico, através do WhatsApp, mas depois foi preso pelo governo da Jordânia e, por conseguinte, as negociações falharam. Cohen disse que as negociações com o Estado Islâmico foram «arruinadas pelo governo da Jordânia».
 
O advogado contou que Maqdisi lhe disse, a 26 de outubro, que estava confiante de que Kassig iria ser libertado, com base no diálogo com o Estado Islâmico. Mas, no dia seguinte, os serviços de segurança da Jordânia prenderam Maqdisi por «usar a internet para promover e incitar opiniões das organizações terroristas jihadistas» e as negociações entraram em colapso.
 

«A questão principal é: não foi o EI que quebrou o acordo, apesar de ter morto Kassig. O acordo foi quebrado pela Jordânia e os Estados Unidos não tiveram nada a ver com isso. Fui para o Médio Oriente com a garantia do EI de que se fosse, Kassig iria permanecer vivo e que eles me iriam ouvir e ver onde é que as negociações iam dar. Durante seis semanas ele permaneceu vivo», contou o advogado no programa «Newsday» da BBC.

 
Cohen disse que se sentiu traído porque o protocolo que elaborou, para evitar a prisão de Maqdisi, tinha sido violado. «Sinto que perdemos uma oportunidade de ouro, não só para salvar Kassig mas outros potenciais reféns», contou o advogado ao «The Guardian».
 
Um funcionário do FBI disse ao «The Guardian» que não tinham sido dado garantias de que Maqdisi ou qualquer pessoa envolvida no esforço ficaria imune a possíveis represálias depois de contactar o Estado Islâmico.