Pelo menos 6700 Rohingyas foram mortos no estado de Rakhine, em Myanmar, entre 25 de agosto e 24 de setembro, durante o primeiro mês de repressão militar no país. Os números resultam de investigações dos Médicos Sem Fronteiras em acampamentos de refugiados no Bangladesh, divulgou esta quinta-feira a organização.

De acordo com a CNN, os voluntários da organização entrevistaram milhares de refugiados rohingyas, em quatro campos distintos no Bangladesh, entre o final de outubro e o início de novembro, colocando questões sobre o número de familiares que tinham morreram até data, mais precisamente antes e depois de a violência começar.

Como 71,7% das mortes relatadas foram causadas pela violência, cerca de 6.700 rohingyas, nas estimativas mais conservadoras, foram mortos, incluindo pelo menos 730 crianças menores de cinco anos", indica o relatório dos Médicos Sem Fronteiras.

O número estimado pela organização ultrapassa o valor indicado pelo governo de Myanmar, que aponta para as centenas.

Desde o ataque militar, que começou em agosto, quase um milhão de rohingyas, etnia muçulmana perseguida no país asiático, fugiu do noroeste de Myanmar para o Bangladesh, numa tentativa de sobreviver ao que as Nações Unidas consideram ser uma "limpeza étnica".

Nós encontrámo-nos e falámos com sobreviventes da violência em Myanmar, que agora estão abrigados em acampamentos superlotados e insalubres no Bangladesh", disse o médico Sidney Wong, diretor médico dos Médicos Sem Fronteiras, citado pela CNN. "O que descobrimos foi assombroso, tanto pelo número de pessoas que relataram que um membro da família morreu devido à violência, como por causa das formas terríveis pelas quais elas disseram que os parentes foram mortos ou gravemente feridos", acrescentou.

Wong revelou-se chocado tanto com o número de vítimas, como com a violência com que foram mortas.

O pico das mortes coincide com o lançamento das mais recentes 'operações de varredura' das forças de segurança de Myanmar, na última semana de agosto", disse Wong.

Os rohingyas são uma minoria muçulmana em Myanmar, particularmente perseguida no estado de Rakhine, com aproximadamente um milhão de pessoas. Myanmar não os reconhece como cidadãos, nem tão pouco como um dos 135 grupos étnicos diferentes a viver no país.

No início de novembro, os Médicos sem Fronteiras realizaram seis estudos retrospetivos de mortalidade em diferentes setores dos acampamentos de refugiados em Cox's Bazar, no Bangladesh, na fronteira com Myanmar. A população total das áreas abrangidas pelas investigações foi de 608.108 pessoas: 503.698 tinham fugido de Myanmar após o dia 25 de agosto e 100.464 eram crianças menores de cinco anos.

A taxa geral de mortalidade de pessoas nas famílias investigadas, no período entre 25 de agosto e 24 de setembro, foi de oito em cada 10 mil pessoas por dia. Isso equivale à morte de 2,26% (entre 1,87% e 2,73%) da população estudada.

Se essa proporção for aplicada à população total que chegou desde 25 de agosto aos campos cobertos pelas investigações, isso sugere que entre 9.425 e 13.759 rohingya morreram nos primeiros 31 dias após o início da violência, incluindo pelo menos mil crianças menores de cinco anos.

No geral, os tiros foram a causa em 69% das mortes relacionadas com a violência, seguidos de pessoas queimadas até morrerem em casa (9%) e espancadas até a morte (5%).

Entre as crianças com idade inferior a cinco anos, mais de 59% das que foram mortas durante esse período foram alvo de tiros, 15% foram queimadas até a morte em casa, 7% foram espancadas até a morte e 2% morreram devido a explosões de minas terrestres.

O diretor médico dos Médicos Sem Fronteiras avisa que o balanço de vítimas mortais poderá estar subbestimado.

“Os números de mortes estimados são, provavelmente, muito inferiores aos que verdadeiramente se verificaram, já que não entrevistámos os refugiados de todos os campos do Bangladesh. Além disso, as investigação não contabiliza as famílias que nunca chegaram a sair de Myanmar”, explicou Sidney Wong.  

"As pessoas ainda estão a fugir de Myanmar para o Bangladesh e aqueles que conseguem atravessar a fronteira ainda relatam ter sido vítimas de violência nas últimas semanas", acrescentou Wong.

Em meados de agosto, o Exército de Salvação Rohingya de Arakan (ARSA) atacou posições das forças de segurança de Myanmar e esses ataques desencadearam uma repressão devastadora pelo exército e pela polícia, forçando os rohingyas a fugir do estado de Rakhine para o Bangladesh.