Nikolas Cruz, descrito pelos colegas como um "tipo solitário, muito calado e estranho, com uma vida digital muito perturbadora", expulso por mau comportamento da escola secundária de Parkland, Florida, que frequentava, perpetrou a 15 de fevereiro passado um dos 10 maiores homicídios a tiro em massa da história moderna americana.

Pelo menos 17 pessoas foram mortas, mais 14 ficaram gravemente feridas.

Um treinador de futebol americano, muito popular na Florida, está entre as vítimas mortais.

Nikolas, de 19 anos, voltou à Marjory Stoneman Douglas High School, fez disparar os alarmes de fogo para que um número elevado de alunos saíssem e ficassem sob a sua mira.

Foi preso pelas autoridades, sem oferecer resistência.

Tinha nas suas redes sociais uma obsessão por exibir armas de elevado calibre.

E fez publicações no YouTube e no Instagram como estas: "Quero matar pessoas com a minha AR-15", "Quero morrer a disparar, a matar toneladas de pessoas" e "Vou matar agentes de autoridade depois de matar gente boa".

Este foi o 18.º incidente com armas de fogo em escolas americanas desde o início do ano.

Vou escrever outra vez: este foi o 18.º incidente com armas de fogo em escolas americanas em 2018 (obviamente o mais grave de todos) -- e estamos só a meio do segundo mês do ano.

Enquanto isso, o poder político em Washington continua incapaz de fazer face àquela que é, de longe, a maior ameaça à segurança dos cidadãos nos EUA -- o direito desregulado e desproporcionado à posse de armas.

O que defendem o atual Presidente dos Estados Unidos e boa parte dos congressistas (sobretudo republicanos mas também democratas)?

Que se deem armas a todos para que, num caso como o de ontem na escola de Parkland, Florida, quando um tipo desatar aos tiros alguém o mate rapidamente.

É certo que, perante o choque do que aconteceu, Trump veio dizer que admite impor restrições. Mas a verdade é que, tendo em conta tudo o que Donald disse e fez até agora sobre o tema, a súbita manifestação de vontade não será para levar muito a sério.

Nem tudo o que vem da América merece admiração.

Muito do que a Constituição dos EUA defende merece aplauso. A Segunda Emenda não.

Tem sido uma longa e trágica via para a morte de inocentes, numa estranha repetição, sem lugar a aprendizagem.

América, 2018.

Esquizofrenia social

Nos primeiros 46 dias do ano de 2018 houve 29 tiroteios com vítimas mortais nos EUA – 18 deles em escolas públicas.

O acesso descontrolado à posse de armas será, por isso, o tema que gera maior preocupação na sociedade e na política americana.

Certo? Errado.

A esquizofrenia social e política que se vive em Washington leva a que o sistema político esteja, basicamente, paralisado (sem acordo bipartidário que leve à resolução do shutdown) devido às desavenças em torno da imigração.

Todos os estudos sérios mostram que a imigração (seja de documentados ou indocumentados) NÃO é a explicação para a criminalidade ou a insegurança.

A posse de armas leva a crimes muito mais graves, sangrentos e continuados.

E, no entanto, o que continua a discutir-se nos corredores do Capitólio e da Casa Branca é se deve dar-se o direito de continuar a viver e a trabalhar nos EUA a perto de um milhã de jovens que cresceram na América, viveram na América dois terços das suas vidas e trabalham na América, apenas porque não têm nacionalidade americana.

São pessoas que foram com os pais para a “terra da oportunidade”. Não tiveram, sequer, escolha.

E acabaram por se integrar no país, vivendo, na sua esmagadora maioria, de forma honesta.

Há uma percentagem ínfima, insignificante, ridícula mesmo, de pessoas com cadastro entre os possíveis beneficiários do DACA (lei que trava a deportação desses “dreamers”, assinada ainda na presidência Obama e que o Presidente Trump decidiu terminar, dando até março ao Congresso para resolver o problema).

Trump jura que não tem interesse em deportar em massa quase um milhão de pessoas daqui a umas semanas (o cenário levaria, de resto, a forte conturbação económica, porque muitas empresas e muitos serviços ficariam de repente sem mão de obra).

Mas a verdade é que, por duas vezes, já tirou o tapete à última hora aos líderes democratas no Congresso, quando parecia que estava perto de assinar um acordo.

Do lado republicano, o speaker Paul Ryan tem tentado levar avante uma lei de imigração que contemple essa questão, embora integrada numa visão mais global que respeita os princípios conservadores neste tema.

Só que ainda não reuniu os votos suficientes, perante uma percentagem elevada da bancada republicana que tem uma visão extremada sobre este assunto.

É numa altura como esta que era preciso um Presidente forte, compreensivo e com capacidade de estabelecer consensos.

Trump é tudo menos isso.

Não é bem um Presidente dos Estados Unidos – é mais um “trouble maker” egocêntrico sem noção da necessidade de olhar para o bem comum. Muito triste.

Contrasenso

Todos os estudos sobre a opinião dos americanos sobre a questão do acesso às armas mostram que a maioria da opinião pública defende leis mais restritas.

Sondagem Quinnipiac University, realizada semanas antes do massacra de Parkland, não deixava margem para dúvidas: 59% dos americanos querem mais restrições na venda de armas, só 36% estão contra.

A base trumpiana está aqui muito clara (36% contra leis mais restritas no acesso às armas, apesar das trágicas evidências). Talvez seja este o tema mais definidor para sinalizar a esquizofrenia política e social em que vive aquele grande país.

Nos republicanos só 31% apoiam mais restrições, mas nos democratas esse valor é esmagador: 85%. Nos independentes, 3 em cada 5 (58%) querem também mais restrições.

Prioridades trocadas

O terrorismo é, na agenda política e na perceção dos americanos, muito mais ameaçador que os “mass shootings” com armas de fogo.

E, no entanto, os números mostram-nos outra realidade.

Desde 2002, houve seis atentados terroristas nos EUA. Fizeram 74 vítimas mortais. E houve 121 “mass shootings” (20 vezes mais do que os ataques terroristas), que fizeram 553 vítimas mortais (oito vezes mais que os ataques terroristas).

Morrem, em média, 27 pessoas por dia nos EUA, vítimas de armas de fogo (“mass shootings”, assassinatos simples ou suicídios).

É cinco mil vezes mais provável alguém nos EUA ser morto a tiro por alguém que tenha uma arma legal do que ser morto num atentado terrorista. E é 97 vezes mais provável alguém nos EUA ser morto a tiro num “mass shooting” do que ser morto num atentado terrorista.

Surpresa e perturbação

Os EUA são férteis em surpreender-nos e perturbar-nos.

No mesmo dia (16 de fevereiro) ficámos a saber que o FBI recebeu dois alertas claros de que um jovem perturbado que tinha comprado uma semiautomática tinha declarado por escrito a vontade de "matar muita gente" -- e nada fez para evitar a tragédia.

Também ficámos a saber que o Departamento de Justiça tem provas concretas de que a Rússia fez, desde 2013, um conjunto de ações que constituem crimes graves, com vista a minar a credibilidade do sistema político americano.

Sobre o primeiro assunto, o FBI já veio admitir a falha: é um começo mas continua a ser de preocupar.

Sobre o segundo tema, pode ter sido apenas mais um passo no caso mais grave e complexo de espionagem e contra-informação da história moderna dos Estados Unidos.

A passagem do tempo e a soma de diatribes e casos tem levado a uma espécie de "normalização do inaceitável".

No seu estilo demagógico e pouco amigo da realidade factual, Donald Trump aproveitou estes dois assuntos para, no Twitter, confundir conceitos, culpando o FBI de estar a perder o foco com as investigações sobre a interferência da Rússia e, com isso, ter permitido o massacre de Parkland.

Como é óbvio, as duas coisas não se anulam nem se entrecruzam – e é obrigação do FBI dar boa resposta a ambas.

Mas é bom não esquecermos que Donald Trump é, em todos os aspetos, um Presidente anómalo e improvável: no estilo, no comportamento, na falta de preparação, na forma suspeita como conseguiu chegar à Casa Branca.

Os próximos tempos vão ser interessantes -- e, sim, isso pode ser assustador.