As últimas palavras de intervenção política de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro há dois dias, chegam já depois da sua morte. Num artigo de opinião que enviou para o Jornal do Brasil, e que foi publicado esta sexta-feira, a vereadora municipal condena a intervenção militar que decorre, há um mês no Rio de Janeiro, apontando ao mesmo tempo soluções para a crise de segurança vivida no Brasil. Entretanto, a comunicação social brasileira revela que as balas que a mataram são de um lote vendido à Polícia Federal de Brasília, em 2006.

"Quem matou Marielle?" é uma das perguntas que mais ecoaram nos cartazes erguidos pelas milhares de pessoas que saíram à rua na Cidade Maravilhosa para fazer o luto por Marielle, com a promessa de continuar a sua luta (veja a fotogaleria, no final deste artigo).

A investigação está a decorrer. A imprensa brasileira está a noticiar, citando informações do RJTV, da TV Globo, que as munições da pistola de 9mm utilizada pelos assassinos veio de um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília, em 2006.

As polícias Civil e Federal tentam agora descobrir se houve desvio daquele material material. A perícia da Divisão de Homicídios revelou que o lote de munições UZZ-18 é original. Isto quer dizer que não foi recarregada.

Esse lote é o mesmo que foi usado na maior chacina do Estado de São Paulo, em 2015. Dessa vez, 23 pessoas foram mortas. Foi no dia 13 de agosto, em apenas duas horas. Encapuzados desataram aos disparos, mataram 23 pessoas e deixaram sete feridas, em Osasco e Barueri. Acabaram condenados três polícias militares de São Paulo e um guarda municipal. Terá estado na origem dos assassinatos uma retaliação aos homicídios de um polícia militar e de um guarda, em assaltos perpetrados dias antes.

Quanto à perda de Marielle, sabe-se já foram encontrados nove cartuchos de bala no local do crime e as autoridades acreditam que pelo menos um dos atiradores era experiente. Suspeitam, ainda, de um segundo carro a auxiliar os movimentos dos assassinos e da vereadora.

Ela seguia num carro com o motorista, que também morreu, e com a sua assessora de imprensa, que sobreviveu. Acredita-se que os atiradores sabiam o exato lugar que a política ocupava no carro e que a alvejaram não mais do que a dois metros de distância.

Foi perseguida durante quatro quilómetros, desde que saiu do encontro com jovens negras, na Lapa, até ao local onde foi morta, na Rua João Paulo I, no Estácio, perto da câmara municipal. Eram cerca das 21:30. A hora a que tentaram calá-la para sempre. Os brasileiros prometem fazer ouvir a sua voz.

A voz que não se calou mesmo depois da morte

Marielle foi assassinada, mas o seu ativismo continua também por si própria após a morte. No seu último artigo de opinião, publicado só hoje, a política cita a afirmação do general do Exército Braga Netto de que o "Rio de Janeiro é laboratório para o Brasil".

 As cobaias são negros e negras, periféricos, favelados, trabalhadores. A vida dessas pessoas não pode se experimento de modelos de segurança".

Os exemplos fatais são reais e referiu-os nesse texto, as "cinco pessoas" que tinham morrido no fim de semana anterior, as quatro que ficaram feridas na Região Metropolitana do Rio. Desse total, cinco mulheres. Mulheres que tinham uma cara, um nome. Mencionou todas e as circunstâncias das suas mortes. Uma delas, Alba Valéria Machado, que morreu ao tentar proteger o filho, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Definitivamente a segurança pública não se faz com mais armas. Mas com políticas públicas em todos os âmbitos. Na saúde, educação, cultura e geração de emprego e renda".

 No Twitter, um dia antes de lhe tirarem a vida, Marielle perguntou "quantos mais precisam de morrer", sem fazer ideia de que seria a próxima vítima.

O artigo começa, porém, com a enumeração das mudanças que o país tem conhecido nos últimos tempos. "Reforma trabalhista, PEC dos Gastos, Reforma da Previdência. O impacto dessas profundas mudanças, inspiradas em um projeto político retrógrado, alinhado com interesses que servem ao capital internacional e a setores do empresariado, arremessa um contingente de cidadãos e cidadãs para uma espiral de pobreza".

A seguir, apontou que é neste contexto que tentava "ampliar o olhar sobre a intervenção federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro e avaliar sua real intenção", lembrando que o estado do Rio de Janeiro está em décimo lugar nos índices de violência, atrás de Sergipe, Goiás e Maranhão.

Sendo assim, a Intervenção busca se alicerçar numa justificativa que não tem assento na realidade. Nossa pergunta que não quer calar: porque o Rio de Janeiro?".

Portugal condena "crimes políticos e de ódio"

Em Portugal, o parlamento aprovou um voto de pesar, condenando a morte da vereadora e ativista dos direitos humanos, lamentando a forma como foi “brutalmente assassinada a tiro", na passada quarta-feira.

Os deputados portugueses recordam como, nos últimos dias antes de ser morta, "havia denunciado o assassinato de jovens negros pela Polícia Militar do estado”.

Socióloga, feminista, militante dos direitos humanos e crítica da recente ocupação de vastas áreas urbanas pela intervenção militar do governo federal no Rio de Janeiro, Marielle Franco empenhou-se na luta pelos direitos humanos, especialmente em defesa dos direitos das mulheres negras e dos moradores de favelas e periferias, e na denúncia da violência policial. A Assembleia da República exprime a mais veemente condenação pela violência e pelos crimes políticos e de ódio que aumentam de dia para dia no Brasil”.

Foram, também, realizadas homenagens a Marielle em Lisboa e no Porto.