Uma manifestação «sem precedentes» juntou este domingo mais de 1,5 milhão de pessoas em Paris, e outros milhares noutras capitais europeias, no dia em que a União Europeia anunciou que vai rever o Acordo de Schengen.

A «marcha republicana» convocada para esta tarde em Paris juntou mais de um milhão de pessoas contra o terrorismo e em solidariedade com as vítimas do atentado ao jornal «Charlie Hebdo», ficando a par do ajuntamento de 1,5 milhões de pessoas que, em 1998, comemoraram nas ruas de Paris o título de Campeão do Mundo de Futebol pela França.

Pelo menos 3,7 milhões saíram às ruas, em todo o país, segundo o Ministério do Interior francês. Mais de 2,5 milhões de manifestantes foram contados em diferentes localidades francesas enquanto em Paris, os manifestantes eram entre 1,2 e 1,6 milhões, uma contagem impossível de confirmar dada a afluência maciça, acrescentou o ministério.
 
A contabilização da France Presse é mais modesta e diz que saíram à rua cerca de 2,5 milhões de pessoas, a par de muitos milhares noutras cidades europeias como Londres, Madrid, Berlim e Bruxelas.

Estes números levaram o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, a considerar «sem precedentes» as manifestações de hoje, dia em que Paris, nas palavras do presidente de França, François Hollande, «foi a capital do Mundo».

Ainda antes de dezenas de políticos darem as mãos para encabeçarem a marcha, já onze ministros do Interior e da Administração Interna se tinham reunido na capital francesa, apelidada pelo presidente gaulês de «capital do mundo», para decidir rever o Tratado de Schengen e acordar a participação numa cimeira contra o «extremismo violento», em Washington, no próximo mês.

No encontro desta manhã em Paris, os onze ministros do Interior e Administração Interna da União Europeia decidiram também rever o Acordo de Schengen para melhorar e reforçar os controlos nas fronteiras exteriores da UE das pessoas que gozam do direito de livre circulação, focando-se especificamente nos europeus extremistas que regressam à Europa depois de combaterem em países como a Síria ou o Iraque.

Por outro lado, decidiram também reforçar a cooperação e o controlo dos movimentos dos combatentes estrangeiros e na luta contra os «vetores da radicalização», especialmente a internet.

O Acordo de Schengen permite a abertura de fronteiras a trinta países europeus (todos os da União Europeia com exceção da Irlanda e do Reino Unido, a que se juntam Islândia, Noruega e Suíça), dispensando o uso do passaporte na circulação entre estes países.

Também presente na marcha, junto de figuras como os líderes do Reino Unido, Espanha, Itália ou Alemanha, para além dos representantes de Israel e da Palestina, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, disse estar numa «manifestação de coesão e convicção democrática», acrescentando que «é significativo que os chefes de Estado e de Governo, presidentes de parlamentos de países europeus e não apenas de países europeus, tenham querido associar com simplicidade mas com profundidade nesta manifestação de coesão e convicção democrática».

Desde quarta-feira, registaram-se três incidentes violentos na capital francesa, incluindo um sequestro, que, no total, fizeram 20 mortos, incluindo os três autores dos atentados, e começaram com o ataque ao jornal «Charlie Hebdo».

Kouachi Sharif, de 32 anos, e o seu irmão mataram 12 pessoas, incluindo dois polícias na quarta-feira, durante o ataque ao «Charlie Hebdo», tendo fugido durante dois dias e depois encontrados nos arredores da capital francesa, acabando por morrer num tiroteio com a polícia.