Produtores de leite e outros agricultores portugueses participam esta segunda-feira em Bruxelas numa grande manifestação para convencer os ministros da Agricultura da União Europeia a “emendar a mão” e a apoiar o setor, que dizem estar a sofrer as consequências de "medidas tristes".

Num dia em que os ministros da Agricultura dos 28 debaterão, numa reunião extraordinária, a situação do mercado, milhares de agricultores, sobretudo produtores de leite e criadores de porcos, contestam nas ruas em redor do “bairro europeu” e da sede do Conselho Europeu as recentes medidas da União Europeia, ou a falta delas.

Segundo Fernando Cardoso, secretário-geral da Fenelac (Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite), a crise que o setor do leite atualmente atravesse deve-se em muito à “falta de políticas da UE”, pois “o mercado nem sempre é eficiente, e neste momento não é eficiente”, pelo que necessita de regulação.

“Há um grande desequilíbrio entre a oferta e a procura – há muito mais oferta que a procura – e o objetivo de uma política é exatamente (ser acionada) quando o mercado não responde às exigências”, disse, comentando que um das razões para o desequilíbrio atual foi a decisão de por fim às quotas, “um instrumento que permite controlar a oferta de leite na UE sem custos para o contribuinte”.

“Nós sempre fomos a favor das quotas (…) mas inexplicavelmente os ministros da Agricultura da UE decidiram terminar com as quotas e estamos a ver o resultado neste momento. É uma medida triste, uma medida que foi errada, esperemos que agora deem a mão e voltem atrás, eventualmente não com quotas, mas algum tipo de medida equivalente às quotas”, afirmou.

Para dar uma ideia do impacto da crise em Portugal, o responsável da Fenelac aponta “um número que é significativo: desde o início do ano, cerca de 250 produtores deixaram o setor”, disse, considerando que “isto é muito grave” e mostra que “o setor está a caminhar numa depressão muito grave”.

Já David Neves, da Federação dos Suinicultores, reclama sobretudo medidas que visem minimizar os efeitos do embargo russo a produtos agrícolas europeus, afirmando que se trata sobretudo de um protesto “contra o facto de se tomarem decisões políticas que não são acauteladas”, sendo por isso necessárias “medidas ao nível europeu“ para compensar os produtores.

Entre as mais de duas dezenas de portugueses que participam na manifestação, Maria Antónia Figueiredo, secretária geral-adjunta da Confagri (Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas de Portugal), comentou que “esta manifestação é uma resposta às medidas de política da UE, que nos últimos anos têm sido altamente prejudiciais para a agricultura”, e para Portugal.

A responsável sublinhou que a grave crise atual se deve precisamente a uma conjugação de dois fatores, o embargo russo, que levou a que “os preços aos agricultores e cooperativas tivessem baixado muito”, e a “novas medidas da Política Agrícola Comum, que desregularam completamente os mecanismos de mercado”, com o fim das quotas leiteiras e abolição de mecanismos de intervenção.

Na reunião de ministros da Agricultura de hoje à tarde participa a ministra Assunção Cristas, que no passado sábado disse acreditar em “bons resultados” para os produtores de leite portugueses.