O dia começou com mais uma notícia de migrantes. Desta vez, na fronteira da Macedónia com a Grécia dezenas tentavam passar. As imagens de confrontos com a polícia, que chegou a atacar com gás lacrimogéneo, começaram a ser difundidas um pouco por todo o mundo. Mas o drama humano que o dia ia acabar por mostrar estava apenas a começar. 

Na torrente de imagens que começaram a chegar às redações, houve uma que de imediato começou a ser mais destacada: um pai agarra um filho encurralado entre escudos e bastões, sobre a expressão maliciosa de um dos polícias. 
 
                 
                       Polícia da Macedónia impede migrantes de entrarem no país (Reuters)

Mas esta era apenas a primeira imagem de uma criança. O que se seguiu foi a divulgação de dezenas de fotografias que mostram centenas de pessoas: muitas crianças, velhos e novos, sem discrição, à procura de um futuro, de uma vida. 
 
Quem arrisca atravessar vários países, e na maioria das vezes cruzar o Mediterrâneo, foge  na maioria dos casos da fome, da guerra, das perseguições e da miséria. A necessidade de escapar para milhares de migrantes leva-os a arriscar a vida.

             
                   Migrantes na Grécia tentam chegar à Macedónia (EPA/GEORGI LICOVSKI)

Os migrantes sírios que atravessam o Mediterrâneo para chegar a Itália e à Grécia em barcos sem condições de segurança, junto com dezenas, por vezes centenas, de pessoas, sujeitos à vontade dos traficantes que prometem uma viagem tranquila a troco das suas economias, são um dos exemplos dos vários caminhos percorridos para chegar à terra prometida. 

A repressão demonstrada esta sexta-feira pela polícia da Macedónia, porém, não foi um reflexo das expectativas dos migrantes. Para Soleiman, 30 anos, cidadão paquistanês entre a multidão de hoje, a polícia comportou-se como as autoridades do seu país.
 

“Deviam ter vergonha. Perdi o meu filho [na investida da polícia]”, contou à agência Reuters.

 
                  
                        Confrontos entre migrantes e polícia da Macedónia (EPA/GEORGI LICOVSKI)

A polícia fronteiriça usou gás lacrimogéneo, granadas de atordoamento e, terá usado também balas de borracha, embora esta última informação não esteja confirmada, para enfrentar centenas de migrantes, incluindo mulheres e crianças, que tentavam entrar no país.


                  
                    Confrontos entre migrantes e polícia da Macedónia (EPA/GEORGI LICOVSKI)

Pelo menos 10 pessoas ficaram feridas nos confrontos, um número que parece ficar aquém dos tumultos gerados no local. Uma primeira investida desde que, na quinta-feira, a Macedónia declarou o estado de emergência, fechou as fronteiras e enviou o exército para as patrulhar, uma medida que o ministro do Interior considera necessária para proteger o país.

 

“Temos de proteger a fronteira e permitir a entrada apenas a um número de migrantes a quem possamos oferecer tratamento adequado”, disse Ivo Kotevski, segundo a Reuters.


Palavras que se concretizaram durante a tarde, quando algumas centenas de migrantes conseguiram entrar no país – os considerados mais vulneráveis e a precisar de maiores cuidados. Nesta altura, uma nova tentativa de cruzar a fronteira por parte dos migrantes resultou em novos confrontos.


                
                  Migrantes na Grécia tentam chegar à Macedónia Foto: REUTERS/Ognen Teofilovski


Os restantes ficaram do lado da fronteira da Grécia, numa terra de ninguém, sem qualquer assistência. Situação já criticada pelo Alto Comissário da ONU para os refugiados, António Guterres.


                  
                       Polícia da Macedónia impede migrantes de entrarem no país (Foto: Reuters)

Mesmo que entrem às centenas de cada vez, esta não será a solução mais eficaz para um resolver um problema para o qual ainda não existem respostas. Os países a que os migrantes tentam agora chegar estão numa rota utilizada para chegar aos países mais ricos da Europa, ou aos que pertencem ao espaço Schengen, como é o caso da Hungria.

Este é, aliás, outro país que está a implementar medidas severas para travar o fluxo da imigração. O governo já está a construir uma vedação ao longo de 175 quilómetros da fronteira com a Sérvia, outra nação na rota para chegar aos países mais ricos.

                  
            Hungria está a construir uma vedação de 175 quilómetros na fronteira com a Sérvia (Foto: Lusa/EPA)

Esta sexta-feira, também a Bulgária anunciou que está preparada para enviar tropas para as suas fronteiras com a Grécia e a Macedónia, e travar o fluxo de entradas. Também membro da União Europeia, a Bulgária torna-se desde logo um destino para muitos migrantes, nem que seja só como rota para outros mais desenvolvidos.
 
A Bulgária que até aqui tinha como maior preocupação a fronteira com a Turquia, decide agora reforçar o controlo, fazendo uso das Forças Armadas.
 
 
               
                   Migrantes na Grécia tentam chegar à Macedónia (EPA/GEORGI LICOVSKI)

Há uma urgência em encontrar uma solução para travar esta vaga, e os países mais afetados estão a optar por medidas de “barreira”, que não intimidam quem fez centenas, às vezes milhares, de quilómetros para chegar ao velho continente.

Só no primeiro semestre de 2015,  um recorde de 137 mil pessoas fizeram a perigosa travessia do Mediterâneo, segundo um relatório do início deste mês do Alto-comissário para os Refugiados da ONU  (ACNUR). Um valor que traduz um aumento de 83% face aos primeiros seis meses de 2014. 

Situação que se reflete numa fatura “pesada” para a Europa: um estudo do consórcio Migrants' Files, divulgado em junho, revelou que os países europeus  gastaram 11,3 mil milhões de euros nos últimos 15 anos a deportar imigrantes ilegais, e outros 1,6 mil milhões em controlo das fronteiras. 
 
Ainda que não se possam acolher todos os migrantes, a Comissão Europeia defende maior cooperação entre os Estados para combater mais eficazmente a imigração ilegal, ao mesmo tempo que pede aos membros da UE que aceitem receber parte dos refugiados que chegam aos países do sul, de forma a partilhar custos.  Portugal já aceitou receber 1.500 nos próximos dois anos

Porém, nem todos os países da União Europeia olham para o problema da imigração da mesma forma, e a solução está a levar mais tempo do que o necessário para atravessar o Mediterrâneo.