Seis semanas antes de ser coroada Miss Mundo 1998, Linor Abargil viu o seu mundo desmoronar. A modelo israelita, na altura com 18 anos, trabalhava numa agência de modelos em Itália e quis voltar a Israel para visitar a família.

Abargil não fazia ideia que o seu pesadelo estava prestes a começar. Uri Shlomo, um agente de turismo israelita, enganou a modelo e disse-lhe que já não havia voos de Milão para Tel Aviv e ofereceu-se para a levar até Roma de onde conseguiria um voo. A meio do caminho, Shlomo parou o carro, tapou-lhe a boca e levou-a para uma zona deserta onde a feriu, amarrou as mãos, apunhalou e a violou duas vezes.

Linor conseguiu fugir do violador e telefonou para a mãe a contar o que tinha acontecido.

«Não tomes banho, vai ao hospital e depois à polícia», aconselhou a mãe desde Israel, conselho que foi a chave para que um ano depois o agressor fosse preso.

Quando Linor voltou a Israel pediram-lhe que ficasse em silêncio para que pudessem deter Schlomo assim que este entrasse no país e ela assim fez. A modelo tinha medo de sair de casa e, apesar de ter sido eleita Miss Israel em março, não queria ir até às Ilhas Seychelles para participar na eleição de Miss Mundo. Foi a mãe que conseguiu fazer com que mudasse de opinião e aceitasse representar o país.

«Participei do concurso para tirar a violação da cabeça e sentir-me normal», afirmou Linor no documentário «Brave Miss World», que estreou este ano, 16 anos depois da pior noite da vida da modelo.

A história de Linor tornou-se pública, pela imprensa italiana, depois da coroação, mas antes do certame, o júri já sabia da história da modelo.

O documentário foi produzido pela realizadora Cecilia Peck, que seguiu a ex-modelo durante quatro anos e retratou a sua história: de vítima de violação tornou-se numa advogada de êxito. Atualmente defende mulheres sofreram o mesmo crime.

«Entendi que a coroa de Miss Mundo tinha um significado especial, foi o meio para fazer que tanta gente se interessasse neste tema. A violação faz-te sentir que estás sozinho, porque se contas o que aconteceu, as pessoas têm medo de o mencionar e ficas rodeado de silêncio. Levei anos a entender qual era a meta de ter ganhado esta coroa. E agora estou certa de que é ajudar outras mulheres em todo o mundo e que contem as suas histórias e continuem a curar-se», afirmou a ex-modelo.

A modelo visitou vários grupos de apoio em todo o mundo, desde centros de crise de violação até campus universitários e centros de ajuda em Hollywood, mas o seu trabalho como defensora fez com que o seu trauma voltasse ao de cima.

Durante o julgamento do seu agressor, a ex-Miss Mundo teve de reviver o episódio traumatizante e enfrentar o violador. Em outubro de 1999, Uri Shlomo foi condenado a 15 anos de prisão.

Depois da denúncia de Linor, mais dez mulheres confessaram ter sido vítimas do mesmo homem e, para que este não saísse em liberdade condicional, a ex-modelo teve de as encontrar e pedir-lhes que testemunhassem contra ele.

«Não foi fácil. Durante o julgamento tive de reviver os acontecimentos e enfrentar as negações do violador», contou ainda no documentário-

Após o julgamento, Linor Abargil conseguiu seguir com a sua vida: iniciou terapia e começou a estudar teatro. Casou-se com o jogador da NBA Sarunas Jasikevius, com quem viveu em Los Angeles. Depois de se divorciar, regressou a Israel, onde estudou direito e começou a defender vítimas de abusos sexuais.

Atualmente, com 34 anos, Linor tem três filhos e espera que o documentário ajude a «acabar com o tabu da violação».