A Irlanda, país com uma forte tradição católica, votou hoje amplamente a favor da revogação da proibição constitucional do aborto, segundo as primeiras projeções.

O “Sim” alcançou 68% dos votos contra os 32% do “Não”, segundo a sondagem à boca das urnas do instituto Ipsos/MRBI realizada para o jornal Irish Times junto de 4.000 eleitores.

Perto de 3,5 milhões de eleitores estavam habilitados a votar hoje no referendo que visava a Oitava Emenda da Constituição irlandesa, cuja revogação poderá abrir caminho a uma nova lei que legalize o aborto naquele país.

A consulta pública foi precedida por uma campanha dura e amarga, na qual as divisões entre as populações rurais e as populações urbanas e entre as camadas mais novas e mais velhas da sociedade irlandesa foram intensas.

Os boletins do referendo de hoje davam a escolher entre a aprovação ou não da proposta de alteração da Constituição, que substituirá o artigo 40.3.3°, ou a Oitava Emenda (introduzida em 1983), pela frase: "Pode ser feita provisão por lei para a regulamentação da interrupção da gravidez".

Atualmente, o aborto é proibido na República da Irlanda e pode resultar numa sentença de 14 anos de prisão para a mulher e para o médico ou profissional de saúde que a auxilie.

Caso estas primeiras projeções se concretizarem, o governo irá propor introduzir uma lei que possibilite o aborto até às 12 semanas de gravidez em qualquer circunstância.

Depois das 12 semanas, a interrupção voluntária de gravidez só será autorizada se existir risco grave para a vida ou saúde mental da mãe, ou se for identificada no feto uma anomalia que provavelmente leve à sua morte antes ou logo após o nascimento.

De acordo com o Conselho Nacional da Juventude, para esta consulta registaram-se para votar cerca 125 mil novos eleitores, mais do dobro do número verificado em 2015 a propósito do referendo sobre o casamento homossexual, quando foram acrescentados mais perto de 66 mil eleitores aos cadernos eleitorais.

Nesta temática, a legislação irlandesa é uma das mais restritivas da Europa, a par da Irlanda do Norte e de Malta, facto que tem levado dezenas de milhares de mulheres a viajarem para o estrangeiro para interromperem a gravidez desde 1983.

Esta consulta pública acontece a três meses de uma visita do papa Francisco, que estará naquele país por ocasião do 9.º Encontro Mundial das Famílias (a decorrer em Dublin entre 21 e 26 de agosto), e três anos depois de uma nova legislação, que também foi submetida a referendo, para o casamento de pessoas do mesmo sexo, situação que causou um terramoto cultural neste país com 4,7 milhões de habitantes e com uma forte tradição católica.

Estas projeções também estão a ser interpretadas como um reflexo do declínio da influência da Igreja Católica irlandesa, que tem enfrentado as mudanças económicas e sociais registadas naquele país, mas também devido aos escândalos relacionados com casos de pedofilia envolvendo padres.