O jornal norte-americano The New York Times publicou esta terça-feira, um dia antes das eleições angolanas, uma reportagem sobre as relações entre Angola e Portugal e forma como os papeis se inverteram. De “colonizador”, o jornal considera que o país passou a “colonizado” pela elite rica de Luanda, capital do país africano.

Num longo artigo, o jornal escreve ainda que, nos últimos anos, Portugal tem servido para essa elite “lavar dinheiro”. O texto é ilustrado com a imagem de um edifício, em Cascais, cuja maioria dos apartamentos de luxo, foi adquirida por cidadãos angolanos e que é mesmo conhecido como “o prédio dos angolanos”.

Referida é também Isabel dos Santos, filha do ainda presidente José Eduardo dos Santos, que fez fortuna e se tornou uma das figuras mais poderosas em Portugal, ao adquirir percentagens elevadas de empresas no país, em diversas áreas como, por exemplo, banca, comunicação social ou energia.

Após décadas de domínio português, o dinheiro inverteu os papéis nos últimos anos, graças ao negócio do petróleo angolano. Ao ponto de o Ministro dos Negócios Estrangeiros, “ter pedido desculpa” a Angola, quando foi noticiado que o vice-presidente do país, Manuel Vicente, estava a ser investigado em Portugal por suspeitas de corrupção, e o Luanda ameaçou cortar relações, escreve o The New York Times.

Celso Felipe, jornalista português e autor do livro “O poder angolano em Portugal”, falou com o autor do artigo no jornal norte-americano. 

Tínhamos na nossa cabeça que Angola era um país pobre, que precisava da nossa ajuda”, afirmou. “E, de repente, eles foram capazes de nos ajudar e comprar coisas que nós não conseguíamos. É como se a nossa empregada doméstica comprasse a nossa casa. É estranho”, acrescentou.

A eurodeputada socialista, Ana Gomes, foi outra das pessoas ouvidas. “Em Angola, chamam Portugal de lavandaria”, disse. “Porque é verdade”, concluiu.

Mas a reportagem destaca também a incerteza do futuro devido às eleições que se vão realizar esta quarta-feira. A saída de José Eduardo dos Santos e a chegada de um novo nome à presidência, deixa em aberto o destino de todos os que beneficiaram com as suas décadas no poder, tanto em Angola, como em Portugal.

Um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros português, António Monteiro, atual chairman do Millennium BCP, cujo principal acionista é a Sonangol de isabel dos santos, defendeu em declarações ao The New York Times, que Angola “foi um investidor muito bem-vindo e que, em certos momentos, foi o único investidor em Portugal”.