O escritor Laurentino Gomes, autor de “1889”, data da proclamação da República no Brasil, mostra-se desiludido e diz que o seu povo também "está meio frustrado com os rumos da democracia”.

Laurentino Gomes - que já publicou “1808” e “1822”, respetivamente, as datas da chegada da corte portuguesa ao Brasil, e a da independência do país e proclamação do Império - marca presença esta quinta-feira na Feira do Livro de Lisboa.

“A construção do Brasil [democrático] está demorando mais do que nós esperávamos, a corrupção é endémica, é persistente, há muita violência, há muita ineficiência nos serviços públicos, há muita burocracia, e o brasileiro está meio frustrado com os rumos da democracia”. “Esta é uma República que promete muito, e cumpre pouco, é uma República que frusta as expetativas das pessoas”


Apesar de tudo, quis dizer à Lusa que está “otimista”. “Finalmente o Brasil está persistindo na democracia, e não existe melhor forma de organizar o futuro de um país, pelo acordo coletivo, e isso é uma coisa que se aprende e envolve muita frustração”, assinalou.

Na perspetiva do antigo jornalista, “o Brasil de hoje vive um momento decisivo no que diz respeito” à sua “psicologia mais profunda”. “Durante a maior parte da sua história o brasileiro não foi chamado ou autorizado a participar do processo político, a decisão foi sempre, ou da Coroa portuguesa, ou do rei D. João VI, do imperador Pedro I, dos ditadores republicanos, Getúlio Vargas e dos fazendeiros, ou dos militares de 1964, que organizaram o Estado de cima para baixo”, acrescentou.

Segundo Laurentino Gomes, “a sociedade brasileira não está habituada a participar politicamente na construção do futuro pela democracia republicana”.

“Foi uma opção que fizemos de há 30 anos, mas por outro lado, o brasileiro não tem paciência para construir soluções de longo prazo, é muito imediatista e meio sebastianista, acredita num salvador da pátria, que nos salve do caos e das nossas turbulências”.

É neste contexto, explicou o autor, que surge “o mito da monarquia, que não é um movimento politicamente viável, mas uma utopia que está subjacente na cultura brasileira, porque deseja uma liderança forte, sábia, honesta e capaz de conduzir o país, e há uma grande frustração em relação às de hoje, e surge sempre a figura do imperador Pedro II, como um pai, há um certo complexo freudiano”.

O autor afirmou que “a democracia [brasileira] sé se vai consolidar quando começar a devolver as expectativas para as pessoas”, e aponta o dedo ao partido no poder que foi o “que mais defendeu a mudança dos costumes, a honestidade”.

“O [ex-]Presidente da República Lula [da Silva] - cujo partido continua no poder - disse que tinha 300 picaretas no Congresso, isto é ladrões, e ele fez um acordo com os 300 picaretas e governou basicamente apoiado pelos 300 picaretas. Há uma grande frustração muito grande entre as promessas e o que é cumprido”, rematou.

Segundo o escritor “existe um certo desânimo com democracia brasileira”.

“Nós alimentámos a ilusão de que após a democracia, bastava uma ou duas eleições e nós nos tornaríamos os Estados Unidos, a Suíça, o Japão, a Inglaterra. Um próspero, rico, democrático, funcional e justo Estado”.


Referindo-se à trilogia que conclui com “1889”, Laurentino Gomes afirmou: “Eu acredito que este três livros – “1808”; “1822”, “1889” -, precisam de ter uma identidade preservada, é como se fossem uma obra em três volumes, porque estas são as datas fundadores do Estado brasileiro”.

O autor revelou que enfrentou “um dilema” ao decidir por fim à trilogia das datas, pois “os leitores começaram a pedir, e a sugerir outras datas: 1500, o achamento, 1930, a revolução de Getúlio Vergas, 1964 e o Governo militar; e até do ponto de vista editorial o sucesso seria relativamente garantindo”, mas optou por explorar “novos rumos e algo que ainda está pouco estudado, mas existe no substrato da sociedade brasileira de hoje que é a escravidão e o trabalho escravo”.