A ex-primeira dama de Timor-Leste, Kirsty Sword Gusmão, criticou numa nota no Facebook comentários do presidente do parlamento sobre o ensino das línguas oficiais no país, considerando que «Timor-Leste deixou de ser colónia» portuguesa.

«Timor-Leste deixou de ser colónia da República Portuguesa, e assim o senhor presidente do Parlamento Nacional tem um dever de servir e promover os interesses da sua nação, e principalmente de defender o direito das crianças de terem acesso à aprendizagem nas línguas que conhecem melhor», escreve na sua página no Facebook.

Sword-Gusmão, atual embaixadora da boa vontade para os Assuntos da Educação e presidente da Fundação Alola reagia a uma entrevista à agência Lusa do presidente do parlamento, Vicente da Silva Guterres.

Nesse entrevista o presidente pediu a outros países e a instituições estrangeiras que deixem de «perturbar» e respeitem a decisão «fundamental e estratégica» de Timor-Leste sobre as suas línguas nacionais, tétum e português.

«Tenho visto, desde o início, infelizmente, interesses estranhos a Timor a perturbar as escolhas fundamentais estratégicas que o país tomou», disse.

«Peço às pessoas que são estranhas a Timor que nos respeitem. Que respeitem as opções fundamentais que os timorenses tomam relativamente aos seus interesses fundamentais. Peço a países estrangeiros ou instituições das Nações Unidas que respeitem a vontade dos timorenses», afirmou.

Na nota no facebook, em que publica a notícia com a entrevista à Lusa, Sword-Gusmão considera que o presidente do parlamento se esqueceu de que «nas áreas rurais e remotas de Timor-Leste, a maioria das crianças não falam bem as línguas oficiais do país».

Argumenta ainda que «todos os anos milhares de alunos abandonam as aulas e/ou repetem o ano escolar por várias razões, inclusive a da língua de instrução na sala de aulas não ser uma língua que as crianças compreendem e dominam».

Finalmente a mulher de Xanana Gusmão considera que «o Estado timorense tem uma obrigação constitucional de 'valorizar e desenvolver' as línguas nacionais de Timor-Leste».

Num comentário separado, nos debates provocados pela sua nota, Kirsty Sword-Gusmão afirma que «não se trata de substituir o português como língua oficial».

Trata-se, escreve, de «ajudar crianças a aprender novos conceitos e a adquirir as línguas oficiais numa base forte de literacia e aprendizagem precoce na língua que sabem melhor».

«Não é ciência nuclear. É sentido comum. E 30 anos de investigação e provas empíricas demonstram isso», escreve.

A nota da responsável da Fundação Alola, que suscitou algumas dezenas de comentários, foi publicada antes de o parlamento timorense debater e votar - está agendado para terça-feira - uma Apreciação Parlamentar para revogar a vigência de dois polémicos diplomas que colocam o português como língua principal apenas no 3.º ciclo.

Os quase 20 deputados que assinam a Apreciação Parlamentar consideram que os dois diplomas do Governo - publicados no Jornal da República em janeiro - são inconstitucionais e «afetam negativamente o ensino da língua portuguesa em Timor-Leste».

Os deputados acham «flagrantemente contraditório» que o Governo, no mesmo diploma, proclame o objetivo de «garantir um sólido conhecimento de ambas as línguas oficiais», mas acabe por as discriminar, «colocando em papel de destaque as línguas maternas e o tétum».

Os parlamentares consideram que o diploma faz «perigar a aprendizagem do português ao não lhe atribuir a devida importância na fase da vida da criança em que ela está mais predisposta à assimilação de conhecimentos».

Natalino dos Santos, chefe da bancada do CNRT, disse que Timor-Leste «é livre», já não é colónia portuguesa «há muito tempo» e que as decisões sobre a língua «foram tomadas pelo parlamento livre» de Timor-Leste.

«O colonialismo não tem nada a ver com isto. A decisão sobre as línguas cabe aos timorenses e os deputados têm o poder de decidir o que é melhor para Timor-Leste», disse à Lusa.


Especialistas timorenses contra diploma

Também especialistas timorenses criticaram os diplomas que retiram o português do início dos currículos escolares.

Benjamim de Araújo e Corte-Real, diretor geral do Instituto Nacional de Linguística de Timor-Leste, que aludiu à capacidade dos cérebros mais jovens, até 12 anos, para adquirir línguas, referiu ainda as assimetrias que se criariam com o ensino das línguas maternas.

Segundo Corte-Real «atrasar sistematicamente» o ensino do português, como preveem os decretos «coloca em desvantagem quem vive no campo, face a quem vive na cidade» - é nas zonas rurais que mais se utilizam as línguas maternas - e «cria uma assimetria que condiciona em vez de promover igualdade de oportunidade e de acesso».

Para Corte-Real, o Estado deve procurar a emancipação dos seus cidadãos e não pode deixar que fatores externos «condicionem diferenças entre cidadãos» ou «criem situações que constantemente estrangulem as línguas».

Mesmo que investir nas línguas maternas - «com um gasto gigantesco» - seja «matematicamente possível» essa decisão, disse, pode «prejudicar o futuro dos cidadãos» porque com as línguas maternas não é possível progredir no processo educativo.

«Temos que promover e proteger a cultura local mas temos que aprender as línguas oficiais cedo para ajudar todo o processo de aprendizagem. Se não, chegam com as línguas oficiais fracas à universidade e não conseguem progredir», afirmou.

Fernanda Sarmento Ximenes, professora do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL (Universidade Nacional de Timor-Leste) considerou que, mais do que «política ou teorias de ensino», o mais importante é perceber a «experiência do ensino em Timor-Leste».

«Os professores de língua enfrentam muitas dificuldades devido a uma aquisição tardia da língua portuguesa. E isso cria dificuldades para os estudantes», afirmou.

«E depois temos que considerar os recursos materiais e humanos para as línguas maternas. Há prioridades mais importantes, como o analfabetismo ou a pobreza, do que as línguas maternas», afirmou.

Para esta especialista Timor-Leste deve «aproveitar todas as ínfimas oportunidades para promover a língua portuguesa» já que há estudos que demonstram que «uma criança que comece a aprendizagem de uma língua estrangeira mais cedo tem mais facilidades em aprender outras línguas».

«Temos que aproveitar a idade mais jovem, com a capacidade mais elevada, para aprender as línguas. Quando não há bases de língua desde muito pequeno é mais difícil», afirmou.