“Retire o impossível e o que sobrar, por muito improvável que possa parecer, será a verdade”

SHERLOCK HOLMES, o detetive genial da ficção de Sir Arthur Conan Doyle, para Watson, seu eterno assistente  

A ameaça nuclear norte-coreana chegou ao seu ponto mais elevado de sempre – e isso não é responsabilidade de Trump.

Mas o desbragamento retórico do Presidente dos EUA a lidar com o problema faz aumentar os riscos, em vez de os diminuir.

Kim Jong-Un e Donald Trump são dois mitómanos egocêntricos com um comportamento imprevisível: eis o “cocktail” explosivo que se junta na altura mais crítica para o tema que mais inquieta as chancelarias mundiais.

Ao escalar o tom da retórica para expressões como “o tempo da diplomacia acabou”, “Kim vai saber o que é fogo e fúria” ou “eles só percebem uma coisa”, insinuando que os Estados Unidos vão responder com “resposta militar maciça”, o Presidente dos Estados Unidos está a abrir um caminho que pode não ter retorno.

O que vale, para já, é que as palavras de Trump têm sido contrapostas pelas figuras principais da diplomacia e da defesa da própria Administração Trump.

Rex Tillerson, secretário de Estado, e o general James Mattis, secretário da Defesa, desmentiram, com todas as letras, o Presidente dos EUA e têm garantido, à mesa das negociações, que “ainda há muito espaço para o diálogo e para a diplomacia”, carregando na tecla das sanções e do envolvimento da China, o ás de trunfo para que esta megacrise gerada pelo comportamento da Coreia do Norte possa ser aliviada.

Mesmo a intervenção de Nikki Haley na ONU, ainda que sinalize um aviso claro dos EUA a Pyongyang de que uma “guerra quente” pode mesmo surgir em próximos passos desta escalada de tensão, ressalvou sempre, pelo menos no texto lido pela Embaixadora americana nas Nações Unidas, que «os EUA nunca pretendem que a solução seja a guerra, mas parece que os norte-coreanos estão a implorar por um conflito real».

Depois do teste da “Bomba H” (com capacidade destruidora dez vezes superior à que foi detonada no teste anterior), estamos num ponto em que quem disser que sabe o que, verdadeiramente, vai acontecer na crise norte-coreana ou está a mentir ou, simplesmente, a tentar adivinhar.

Mas, como Sherlock Holmes costumava explicar ao seu fiel escudeiro Watson, “se retirarmos o impossível, o que sobrar, por muito improvável que possa parecer, será a verdade”.

Ora, ainda que pareça improvável, tendo em conta o comportamento de Kim Jong-Un (aumento brutal no número e na eficácia de testes nucleares e de envio de mísseis balísticos desde 2011), continua a parecer impossível que o líder norte-coreano deseje mesmo uma guerra com os EUA, o Japão e a Coreia do Sul. As hipóteses de vitória e de mera sobrevivência seriam, para Pyongyang, zero.

A vontade de Washington, Pequim, Tóquio, Seul ou Moscovo de um envolvimento direto num confronto real é, também, zero – ainda que por motivos diferentes.

O que agrava, então, o risco?

As personalidades instáveis e imprudentes de Kim e Donald; a necessidade de Kim de preservar internamente o seu regime (e o reconhecimento internacional de que constitui ameaça real, perante o poder nuclear, será o garante de que não será deposto); a relação de forças entre Pyongyang e Pequim (a Coreia do Norte precisa do fornecimento chinês, mas com poder nuclear aumenta o crédito negocial junto da China, pela via da chantagem).

Tudo isto tem a ver com “bluff”, poder e perversidade. E muito pouco com racionalidade.

Se explorarmos um pouco mais a via da perversidade, podemos também concluir que, para Donald Trump, tem dado muito jeito que o foco das preocupações do mundo e das “headlines” de jornais e televisões tenha estado, nas últimas semanas, na escalada de tensão gerada pela Coreia do Norte e não nos desatinos e nas incapacidade de liderança interna de Donald Trump, um presidente cada vez mais cercado pela “Russia Collusion” e pelo total desastre na relação com o Congresso.

O conluio russo vai-se agravando

O tema Coreia do Norte é tão assustador que tem absorvido grande parte da atenção política e mediática nos EUA e no resto do mundo. Mas os problemas agravam-se para a Presidência Trump, em vários domínios.

A “Russia collusion” está a avançar perigosamente nas investigações que decorrem na Câmara dos Representantes, no Senado e, sobretudo, na “Comissão Mueller”, entidade com poderes especiais, nomeada pelo Departamento de Justiça, mas independente da Casa Branca ou do Congresso.

Pessoas próximas do ex-diretor do FBI referem que Mueller e a sua equipa têm feito um trabalho simultaneamente de “paciência, detalhe e determinação”.

Robert Mueller, advogado com ligações ao Partido Republicano, foi nomeado diretor do FBI pelo ex-Presidente George W. Bush, mas o democrata Barack Obama manteve-o no cargo, num sinal de reconhecimento pela credibilidade do trabalho que fez à frente de uma das duas maiores agências de informações e inteligência.

Muitos vêem em Mueller a pessoa que tem um machado que, lentamente, vai cortando uma grande árvore de ligações suspeitas e comprometedoras entre membros de topo da Administração Trump, da campanha presidencial de Donald Trump, o próprio Presidente e figuras que representam altos interesses russos.

Pelo meio, o agravar de tensões diplomáticas entre Washington e Moscovo, com troca de sanções, pode baralhar o cenário – mas no âmbito das investigações, os sinais são cada vez mais claros. Já não é só Paul Manafort (ex-diretor de campanha de Trump e envolvido até aos ossos com financiamento pró-russo na Ucrânia) ou Carter Page (assessor para a política internacional, sobretudo para a Rússia, na primeira fase da campanha Trump e que o FBI acredita ter sido um agente do Kremlin infiltrado no círculo próximo do então candidato presidencial).

A investigação é, hoje, muito mais vasta: já atingiu Donald Trump Jr., filho do Presidente (que se encontrou com uma advogada russa que teria “informações comprometedoras sobre Hillary Clinton), Jared Kushner (genro do Presidente, ouvido no Senado para esclarecer os contatos tidos com elementos de fundos russos) e o próprio Presidente, que desde junho passado é, também ele, alvo direto das investigações de Mueller por eventual obstrução à justiça no âmbito da “Russia collusion”.

Instinto de sobrevivência

Nos últimos meses, Trump já terá estado próximo de cair na tentação de fazer com Mueller o que fez com Comey (ex-diretor do FBI).

Mas o tal “instinto de sobrevivência” que o Presidente, sem dúvida, tem levou-o a travar à última hora a vontade de despedir Mueller, quando lhe lembraram que foi assim que Nixon se precipitou para o abismo: na América, um Presidente que demita quem o está a investigar diretamente só pode ter um destino – a saída.

Trump é instável e imprevisível: mas não é desprovido dessa capa protetora que, à última hora, lhe vai garantindo a sobrevivência política. A grande pergunta é mesmo: até quando?

Mitch McConnell, o líder da maioria republicana no Senado, recusou-se a falar com o Presidente (no sentido literal, não lhe atendeu os telefonemas nem reuniu com ele) durante um mês, depois da humilhação pública que Trump lhe presenteou, por não ter conseguido maioria suficiente para revogar o ObamaCare.

Nas próximas semanas, Donald vai precisar de aliados no Congresso para fazer aprovar a Reforma Fiscal (com fortes cortes para os mais ricos), uma das suas principais bandeiras eleitorais.

Isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

*autor de dois livros sobre a presidência Obama e outro sobre Hillary Clinton e a eleição presidencial de 2016