Um antigo elemento do corpo de segurança de Kim Jong-il, pai do atual líder coreano, contou à BBC como foram os quatro anos e sete meses de fome, frio e falta de higiene que passou preso na Coreia do Norte, expondo o terror que se vive nos campos de trabalho forçado naquele país.

Lee Young-guk, hoje com 55 anos, passou de homem de confiança do Governo a traidor, acabando detido num desses campos.

Lee tinha apenas 17 anos quando foi chamado a integrar o contigente de guarda-costas de Kim Jong-il, aquele que se viria a tornar o líder norte-coreano entre 1994 e 2011.

Este antigo elemento do corpo de segurança de Kim Jong-il passou por vários testes e um longo treino físico, psicológico e ideológico para conseguir chegar a guarda-costas oficial.

Os treinos incluíam natação e artes marciais, mas também aulas sobre a vida de Kim Jong-il e a família.

Ele queria parecer ainda mais poderoso do que o pai: era retratado como um Deus, uma figura sagrada e inatingível. Fomos submetidos a uma lavagem cerebral”, contou Lee à BBC.

Em 1980, Lee entra finalmente para o contingente de 500 guarda-costas, já com 39 anos.

Durante os onze anos em que serviu o futuro líder, Lee foi testemunha das extravagâncias e do luxo da família, convencido de que a vida dos norte-coreanos teria melhorado.

A família possui um quarto do país e usa esse território como área de lazer e para férias. Enquanto isso, a população sofre de desnutrição e pobreza. Nem mesmo os oficiais do alto comando sabiam a verdade por detrás da família, desse abuso de dinheiro”, confessou.

Mas, como apenas um elemento de cada família podia trabalhar para o regime, quando o irmão se tornou motorista de Kim Jong-il, Lee regressou a casa e acabou por cair em desgraça.

Deparando-se com a miséria em que se vivia no interior do país, Lee tenta atravessar a fronteira com a China em 1994, mas foi detido por agentes norte-coreanos. É aí que é enviado para os temidos campos de trabalho de Pyongyang, onde ficou durante quatro anos e sete meses, a trabalhar 14 horas por dia. Para lá são enviados todos aqueles que são considerados inimigos do regime.

Tínhamos uma vida de animais, aquilo não era humano. Para sobreviver, comíamos ratos ou cobras. Muitas vezes, tivemos que comer os excrementos dos animais porque eles alimentavam-se melhor do que nós”, recordou.

Havia ainda um espaço para execuções por enforcamento ou fuzilamento daqueles que tentavam fugir ou que eram apanhados a roubar alimentos.

Tínhamos de assistir a tudo a menos de 10 metros de distância”, relembrou Lee.

Apesar do controlo, Lee conseguiu fugir para a Coreia do Sul, juntando-se aos cerca de 25 mil norte-coreanos que se exilaram no país vizinho.

Nada mudou no país desde o período de Kim Il-sung. O único interesse deles é cuidar do próprio património. Não se preocupam com o bem-estar da sociedade”, acusou.

Estima-se que 120 mil pessoas estejam atualmente detidas nestes campos de trabalho forçado.