Keith Raniere, de 57 anos, líder do grupo Nxivm (pronunciado "Nexium") responde esta terça-feira num tribunal do Texas após ter sido detido no domingo, na estância balnear mexicana de Jalisco, e posteriormente extraditado.

O norte-americano, que lidera uma organização apresentada como sendo de autoajuda, com ramificações em vários países, é procurado pela justiça do seu país, sob várias acusações, como, por exemplo, tráfico de mulheres, escravatura e associação criminosa.

Raniere criou uma sociedade secreta de mulheres com as quais teve relações sexuais e que foram marcadas com as suas iniciais, sendo forçadas sob a ameaça de serem divulgadas informações pessoais suas a ficar sem os seus recursos", refere a acusação de um procurador de Nova Iorque.

De igual forma, William Sweeney, que dirige a investigação do FBI, sustentou, segundo relata o jornal espanhol El País, que "Raniere demonstrou um abuso asqueroso de poder com os seus esforços para denegrir e manipular as mulheres que considerava suas escravas sexuais".

Fugido à justiça norte-americana, o líder do Nxivm foi detido no passado domingo pela polícia mexicana, onde se refugiara, protegido por mulheres da sua seita, que mantém um grupo organizado de seguidores no México. O momento da detenção foi entretanto divulgado em vídeo pela página Frank Report que, há anos, se dedica a investigar Raniere.

Marcadas para a vida

Na base da seita Nxivm, que atuava sob a capa de ministrar esquemas de autoajuda aos aderentes, esteve um esquema de pirâmide, com ateliês criados por Raniere, que custavam cerca de seis mil euros por um curso de 160 horas.

Os investigadores sustentam que, desde 2011, os aderentes aos Programas de Sucesso Executivo (ESP, a sigla em inglês) assinavam contratos de confidencialidade, sendo depois convencidos a investir mais dinheiro em aulas adicionais e a subir na hierarquia da organização.

Crê-se que os ESP chegaram a congregar cerca de 16 mil pessoas e a organização criou sucursais no Canadá, México e noutros países da América Latina.

Mais tarde, segundo as autoridades que investigam a seita nos Estados Unidos, em 2015, Raniere criou um grupo mais seleto dentro da organização, que apelidou de DOS, as iniciais de "Dominante Sobre Submissa". Também aí, as mulheres subjugadas deviam arregimentar outras para se tornarem amantes, sendo que, segundo vítimas que denunciaram a situação, no topo da pirâmide estava, necessariamente, Keith Raniere.

Muitas escravas foram marcados na área pélvica com um símbolo que continha as iniciais de Raniere", refere um comunicado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, onde se refere ainda que essas marcas eram realizadas em cerimónias filmadas em vídeo.

Os que entravam na organização eram também forçados a fornecer informações que os pudessem comprometer, ou a amigos e familiares, fosse através de fotografias embaraçadoras ou de informações bancárias. Eram ameaçados, caso tentassem deixar a seita.

Estes crimes graves contra a humanidade não são apenas assustadores, mas também desconcertantes. Hoje, colocámos um fim a essa tortura", foram as palavras do inspetor Sweeney, após a captura de Raniere, levada a cabo pela Polícia Federal Mexicana, apoiada por agentes do FBI no México.