Terras que pertencem à Igreja Católica em Kabale, no Uganda, estão a ser utilizadas para um negócio que recorre à exploração de mão-de-obra infantil, segundo uma investigação da BBC.

Alex Turyaritunga, enfermeiro das Nações Unidas e ativista pelos direitos humanos no Uganda, foi a primeira pessoa a chamar a atenção para este caso. Alex também foi vítima de exploração infantil pelas forças militares do Uganda nos anos 90. Depois da morte do pai, foi acolhido pela Igreja Católica, que financiou os seus estudos e o ajudou a mudar de vida. Mas Alex contou à BBC que hoje em dia tudo mudou.

O enfermeiro garante que em terrenos que são propriedade da Igreja trabalham crianças com menos de 14 anos, idade mínima no Uganda para trabalhar. Trata-se de terras cedidas pela diocese local a uma empresa de plantação de chá, Kigezi Highland Tea Limited. Um negócio de onde a Igreja  retira lucros, segundo apurou a BBC.

A BBC confirmou junto do registo local que os terrenos em causa são propriedade da Igreja Católica no Uganda. Um supervisor da plantação aceitou falar anonimamente e confirmou que naquele campo trabalham crianças e que o seu ordenado ronda os 40 cêntimos por dia. Na altura da visita aos campos, os repórteres encontraram 15 crianças a trabalhar.

Os jornalistas da BBC tentaram entrar em contato com a empresa Kigezi Highland Tea Limited, mas não obtiveram resposta.

Tentaram também entrar em contato com o bispo da diocese de Kabale, Callistus Rubaramira. Apesar de não terem conseguido falar com o bispo, à porta da diocese encontraram mais crianças a descarregar sementes de chá de um camião. Perguntaram a idade às crianças. A resposta: “10 anos!”

O secretário do bispo, Padre Lucien, negou a existência de trabalho infantil nos campos. A BBC contactou por isso o Vaticano e falou com o porta-voz do Papa, Federico Lombardi, que recusou a responsabilidade da Igreja Católica nesta situação.

“Nego qualquer responsabilidade ou obrigação de responder sobre este assunto – se existe um problema para a igreja local, não sou responsável por isso”, disse Frederico Lombardi à BBC.


Durante a visita ao Uganda, em novembro de 2015, o Papa Francisco disse que as crianças africanas são das maiores vítimas de exploração por outros poderes. Segundo a reportagem da BBC, as crianças são grandes vítimas também por parte da Igreja no Uganda.