O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, considera que as sociedades e a civilização como a conhecemos caminham para um regime de totalitarismo, em resultado de uma vigilância de dados massiva, feita quer pelos governos e as suas agências, quer pelas empresas tecnológicas que compactuam nestes sistemas.

«O avanço da civilização, em termos cada vez mais de tecnologia complexa, pode levar-nos ao totalitarismo, como resultado da centralização de informação? Essa é a verdadeira questão que tem de ser respondida», admite.

As declarações do ativista, que se encontra a residir na embaixada do Equador há dois anos, foram feitas através de videoconferência, num debate realizado no âmbito do Lisbon & Estoril Film Festival. Esta conferência contou ainda com a participação de Jacob Applebaum, ativista e impulsionador do projeto TOR (The Onion Router) - um software de código aberto que permite ao utilizador navegar na Internet de forma anónima-, e Jéremie Zimmerman, hacker e fundador da La Quadrature du Net, um grupo ativista que luta pelas liberdades fundamentais na Internet.

Julian Assange recusa o argumento de que esta vigilância e recolha de dados, que foi denunciada por exemplo pelo antigo agente da NSA Edward Snowden, seja usada exclusivamente na luta contra o terrorismo, que depois do 11 de setembro George W. Bush denominou de «War on Terror» (Guerra contra o Terror). Assange vai mais longe e diz que são os serviços de inteligência como a NSA que são uma verdadeira ameaça à segurança interna.

«A verdadeiro ameaça para a segurança existe quando as agências têm demasiado poder e como resultado disso criam um estado ou colaboram com outro estado para domesticarem as pessoas, de uma forma ou de outra.»


Uma ideia que o maior rosto da WikiLeaks expressou depois de a eurodeputada Ana Gomes o ter questionado sobre a possibilidade de ferramentas como o TOR serem utilizadas ao serviço da criminalidade e do terrorismo. Assange explicou ainda porque é que, do seu ponto de vista, a sociedade não precisa de uma «vigilância massiva» para ser civilizada e evitar esse tipo de comportamentos.

«Tínhamos uma vigilância massiva há 20 anos atrás? Não. E os criminosos estavam a aterrorizar e a destruir as cidades há 20 anos? Não. Precisamos desta vigilância para termos uma sociedade civilizada e não termos crimes? A resposta é não. Este regime de controlo leva apenas à conformidade e a uma situação em que as pessoas ficam com medo de falar», justificou


O australiano aproveitou ainda para afirmar que esta prática de vigilância, nomeadamente no caso da NSA, não é uma novidade, apesar de a Internet ter alargado estes sistemas a todas as pessoas.

«A NSA está envolvida este tipo de vigilância há muito tempo, Houve até um escândalo massivo nos anos 70. A diferença é que a Internet pôs todas as sociedades e todos os indivíduos sob essa vigilância e, portanto, houve uma grande expansão dessa prática», afirmou 



Neste encontro que começou às 10:00 no Centro de Congressos do Estoril, Assange fez um apelo à plateia: «temos de desenvolver uma consciência sobre esta questão da vigilância e não podemos permitir ser vigiados por uma máquina poderosa».

Antes da intervenção de Assange, Jacob Applebaum, que atualmente vive em Berlim e trabalha com o jornal alemão «Der Spiegel» sobre os documentos confidenciais obtidos por Edward Snowden, serviu-se do exemplo dos smartphones para falar sobre «ataques às liberdades fundamentais dos indivíduos».

«Os smartphones são desenhados para serem localizados e espiados. Temos de criar estruturas alternativas para perceber como nos podemos proteger desses ataques», referiu.


Jérémie Zimmerman afirmou que esta questão é, de resto, um dos mais importantes desafios da Humanidade nos nossos dias.

«Todas as tecnologias que usamos têm sido viradas contra nós e isso é um dos mais importantes desafios que a Humanidade enfrenta nos dias de hoje», declarou. 


As empresas tecnológicas e a vigilância dos cidadãos

Julian Assange defendeu que o modelo da Google assenta no mesmo que o dos sistemas de segurança nacional, arrecadando informação de todo o mundo, tratando-a e organizando-a para cada pessoa. O ativista alertou a plateia para os perigos que advêm da cooperação de empresas como a gigante norte-americana com os governos e os dispositivos de poder.

Quando os cibernautas dizem não temer a Google ou a Internet, por não terem nada a esconder, o australiano admite que a primeira pergunta que faz é: «o que está errado contigo?», explicando, em tom irónico, que uma pessoa que não tem nada a esconder deve ser muito aborrecida e que devia imediatamente arranjar algo para esconder.

Applebaum foi mais longe, admitindo que as empresas tecnológicas como a Google, o Facebook ou a Apple se tornaram agências secretas de informação ao serviço dos governos, utilizadas de forma generalizada e não exclusivamente por razões específicas como é o caso das questões relacionadas com a criminalidade ou o terrorismo. 

«As leis protegem este sistema. As empresas não podem dizer que fazem estas coisas e este é um dos problemas fundamentais. Os governos tornaram estas empresas agências secretas do estado», justificou.

Para Zimmerman, um dos problemas inerentes ao controlo das empresas tecnológicas sobre a informação dos indivíduos é o facto de as pessoas terem uma visão distorcida sobre esta realidade.

«As pessoas continuam a achar que podem confiar na Apple e no Google e que estas são ‘user-friendly’ mesmo quando vemos que são ‘user-enemy’. Há uma explicação para isso e chama-se marketing», referiu. 






O papel do cidadão

Mas numa sociedade digital onde as ferramentas ao dispor dos indivíduos são cada vez mais tecnológicas e complexas , como pode o cidadão comum escapar à «centralização da informação» a que os oradores se referem? Em resposta a esta perguntada, levantada pela plateia, Assange aconselhou o público a escolher outras alternativas que não o Facebook e o Google.

«Vão à pagina da WikiLeaks e comecem por ler um documento chamado 'Google Is Not What It Seems' (a Google não é o que parece)» sugeriu.


Zimmerman afirmou que compreender a «arquitetura da Internet» é fundamental e está a acessível a qualquer cidadão, independentemente de este ser ou não um especialista na área da informática. Este conhecimento permite, segundo o ativista, uma forte mobilização social contra o poder político.

«Através das ferramentas tecnológicas e da Internet, nomeadamente através dos fóruns e dos chats, é possível criar formas de partilha de conhecimento, o que é muito poderoso e permite pressionar o poder político. Um computador é como uma caneta ou como uma guitarra: qualquer pessoa pode aprender a usá-lo e acho que esse aspeto cultural ainda não foi explorado como se devia fazer», declarou.


Appelbaum vê esta questão de uma forma um pouco diferente, considerando que «não se pode culpar as pessoas por serem enganadas pelas empresas».

«O que Snowden revelou foi que há empresas que compactuam com as agências dos estados. Não podemos culpar os utilizadores por assinarem um contrato com o Facebook que tem, algures, uma pequena cláusula onde apenas dizem que, eventualmente, e apenas eventualmente, poderão partilhar esta informação», referiu.


Apesar disso, o ativista norte-americano pensa que as escolas e os próprios professores deviam fomentar o acesso à Internet e, mais do que isso, a curiosidade dos alunos em conhecer outras plataformas de partilha de informação, de modo a que os que se interessam mais por estes temas possam ter as bases necessárias para uma exploração individual. 

Uma exploração individual que pode usar as múltiplas ferramentas online que permitem a partilha de informação entre indivíduos de todas as partes do mundo e que procuram salvaguardar as liberdades que os ativistas consideram ser atacadas. Como é o caso do TOR cujo objetivo Appelbaum, um dos maiores impulsionadores do software, teve a oportunidade de explicar.

«O objetivo do projeto TOR é criar uma forma prática de as pessoas poderem ter o direito ao anonimato. As pessoas tem necessidade de ter acesso a discussões políticas e a ferramentas técnicas tal como têm necessidade de ter acesso a ferramentas culturais».


A sessão, que durou pouco mais de duas horas, ficou ainda marcada pelo facto de Julian Assange ter assegurado que novos documentos confidenciais vão ser revelados brevemente, sem adiantar, no entanto, detalhes sobre este assunto.