Cinco anos depois, a sentença. O Tribunal de Munique condenou na quarta-feira a prisão perpétua Beate Zschäpe, a única sobrevivente de um grupo neonazi, pela sua participação numa dezena de assassinatos racistas, num caso que chocou a Alemanha.

Beate Zschäpe é a única sobrevivente de um trio que formava com Uwe Mundlos, 38 anos, e Uwe Bohnhardt, 34 anos, com os quais teria mantido uma relação amorosa durante vários anos.

Em 2011, os dois homens foram encontrados mortos quando estavam prestes a ser detidos. A polícia acredita que poderá ter sido um pacto de suicídio, refere a BBC.

Conhecida como a "noiva nazi", Zschäpe, de 43 anos, foi considerada culpada dos dez ataques perpetrados pelo grupo designado Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU) entre 2000 e 2007.

A mulher estava a ser julgada desde maio de 2013 pela alegada participação em 10 homicídios, além de dois atentados com explosivos contra comunidades estrangeiras e 15 assaltos realizados entre 2000 e 2007 pelo NSU. As 10 vítimas dos homicídios com motivação racial foram oito pessoas turcas ou de origem turca, alvejados com uma pistola CZ 83, um grego identificado como Theodoros Boulgarides, morto em 2005, e uma mulher polícia, Michèle Kiesewetter, morta em 2007.

O caso chocou a Alemanha uma vez que a célula já estava identificada pelas autoridades, mas continuou ativa e impune durante vários anos. A ligação entre os dez homicídios foi descoberta, por acaso, em 2011, depois de uma tentativa de roubo fracassada que levou à descoberta do grupo. Foi nesta altura que os corpos de Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt foram encontrados numa caravana queimada que tinha sido usada no assalto.

Após a morte dos dois homens e ao ver as notícias na televisão, Zschäpe resolveu incendiar o apartamento onde os três  viviam com o objetivo de destruir provas, mas não foi bem-sucedida e acabaria por se entregar às autoridades. 

Quatro cúmplices também condenados

Em setembro de 2016, Beate Zschape rompeu o silêncio após mais de três anos de julgamento para assegurar já não ter "simpatia pela ideologia" nacional-socialista.

Já não julgo as pessoas em função das suas opiniões ou das suas origens, mas em função das suas ações", disse.

Durante o julgamento, outras quatro pessoas foram condenadas pelo envolvimento com o grupo nazi.

Ralf Wohlleben, um antigo funcionário do Partido Democrático Nacional (NPD), de extrema-direita, foi condenado a 10 anos de prisão por ter sido o responsável pela aquisição da arma usada em nove homicídios. Foi acusado de encorajar os crimes.

Carsten S. vai passar três anos num centro de detenção juvenil por ter sido o responsável pela entrega da pistola e do silenciador à cédula nazi.

André E. foi condenado a dois anos e seis meses por ter apoiado um grupo terrorista. Visitava os dois homens e a mulher, levando os filhos com ele, e garantia assim um ar de aparente normalidade ao grupo, o que permitiu dissipar suspeitas entre a vizinhança.

Holger G. recebeu uma pena de três anos por ter entregue a sua certidão de nascimento e outra identidade a Uwe Mundlos, para o proteger das autoridades.

Ligação ao neonazismo começou aos 14 anos

De acordo com a BBC, Beate Zschäpe conheceu Mundlos quando ainda era adolescente e foi com ele que entrou no mundo dos grupos neonazis quando tinha apenas 14 anos. A alemã conheceu Böhndardt mais tarde e acabaria por se apaixonar. Os três juntaram-se e começaram a viver juntos. Foi por causa da relação com os dois homens que ganhou a alcunha de "noiva nazi".

Segundo a imprensa alemã, as autoridades encontraram várias fotografias antigas onde os três aparecem sempre juntos. Os primeiros ataques do trio tinham como alvo monumentos de homenagem a vítimas do Holocausto.

Durante a década seguinte, Zschäpe assumiu diversas identidades. O Ministério Público alemão acredita que a mulher era a "alma da célula terrorista": escolhia as vítimas e tratava do que fosse preciso para a execução dos crimes.

Enver Simsek, um vendedor de flores turco, foi a primeira vítima do grupo. Foi assassinado em setembro de 2000 com seis tiros na cara. Theodoros Boulgarides foi o único cidadão não turco assasinado. Era serralheiro e a sua aparência poderá ter levado o trio a confundir a nacionalidade da vítima. Em 2007, o grupo matou a mulher polícia, provavelmente numa tentativa de roubo de armas.

Os erros e as dúvidas da polícia

O papel das autoridades alemãs foi várias vezes questionado desde que se descobriu que os crimes tinham uma ideologia neonazi. De acordo com os relatos da imprensa local, na maior parte dos homicídios foi usada a mesma arma, mas a polícia tratou todos os crimes de forma isolada e a possibilidade de se tratar de um acto de racismo foi afastada. Para a polícia, estava-se perante vários casos de ajustes de contas de imigrantes com a máfia turca.

Ao mesmo tempo que decorria o julgamento, uma comissão política começou a investigar, ainda sem êxito, como foi possível que a polícia tivesse perdido o rasto a uma célula já identificada. O caso levou à demissão do chefe das secretas alemãs Heinz Fromm, depois de ter sido tornado pública a destruição de ficheiros relativos ao caso, uma situação que levou o Governo alemão a pedir desculpas em várias ocasiões.

Em declarações ao jornal Frankfurter Rundchau, o presidente da comissão de investigação, o democrata-cristão Clemens Binninger, assumiu que tudo indicava que o trio tinha tido cerca de 130 "cúmplices" e colaboradores que não foram levados à justiça. Alguns, segundo a imprensa alemã, podem ser elementos da extrema-direita que se sabe estão infiltrados nas forças de segurança.