Uma estudante síria utilizou uma câmara escondida para filmar as ruas de Raqqa, a cidade que está sob o domínio do Estado Islâmico há mais de um ano e que é considerada a capital do califado. A jovem acedeu ao pedido da estação France 2, arriscando a vida.

Tratam-se de imagens raras que mostram a vida dos habitantes da cidade, submetidos às ordens e aos ideais dos jihadistas.

No vídeo, observam-se vários homens armados que patrulham as ruas e as mulheres, que vestem o niqab - o véu islâmico-, também surgem com armas. A um dado momento, vê-se uma mulher com uma arma Ak-47 a levar o filho ao parque infantil.

Percebe-se, no entanto, que autora das imagens correu alguns riscos ao circular com uma câmara escondida. Noutra passagem do vídeo, é mandada parar por dois homens que lhe deixam um aviso.

«Tens de te comportar melhor quando estás em público. Nós conseguimos ver a tua cara. Tens de ter atenção a isso. Deus ama as mulheres que estão tapadas», afirma um deles.

Raqqa é retratada como uma cidade onde se impõe o uso do niqab e o ato de oração. Não há música, não há entretenimento, não há qualquer vestígio de tudo aquilo que os jihadistas consideram que contamina as sociedades ocidentais.

Numa sala com acesso à internet vêm-se várias mulheres, de nacionalidade francesa, a conversar com a família. Uma delas tenta convencer a mãe de que não vai regressar ao país de origem e que tudo o que tem passado na televisão é «exagerado».

«Não vou regressar. Não tomei o risco de vir até aqui para voltar para França. Não quero regressar porque estou bem aqui. Tudo o que vejo na televisão é falso, percebes? Juro que é falso. Eles exageram tudo na televisão», afirma.



De acordo com o vídeo, cerca de 150 mulheres francesas viajaram para os territórios dos jihadistas na Síria e no Iraque. O aumento do número de mulheres interessadas na jihad é, de resto, uma questão que tem preocupado as autoridades internacionais.

Mas se o aumento de mulheres jihadistas é motivo de inquietação para a comunidade internacional, também o treino militar a crianças surge no topo dos problemas relacionados com o Estado Islâmico.

A norte da província de Raqqa, existe um campo militar onde as crianças recebem educação religiosa e treino militar para poderem, um dia, participar em operações dos radicais.

«Acreditamos que existem entre 200 e 300 crianças nesse campo», afirmou Ibrahim-al-Raqqawi, um ativista sírio que monitoriza a atividade do EI, em declarações ao «Telegraph».

São rapazes com idades abaixo dos 16 anos que são treinados para um dia serem bombistas suicidas ou para executarem pessoas, à luz das ações que têm sido praticadas pelos rebeldes. Alguns foram recrutados em eventos organizados pelo EI, mas outros terão sido mesmo raptados, sem o consentimento dos pais.

De acordo com Raqqawi, antes de poderem sair do campo, as crianças são postas à prova: ou torturam ou matam um refém do EI.

Em agosto, a história de Mohammed, de 13 anos, que esteve num desses campos de recrutamento fez ecos nos órgãos de comunicação social. O rapaz foi levado pelos jihadistas sem o consentimento do pai e assistiu aos crimes dos radicais. Felizmente para Mohammed, a sua história teve um final feliz: o rapaz conseguiu escapar às mãos dos rebeldes e refugiar-se na Turquia, em segurança, com a família.