José Ramos-Horta considerou esta segunda-feira que o êxito ou falhanço das missões das Nações Unidas dependem em grande parte do «calibre» das lideranças nacionais e de uma agenda de desenvolvimento que acompanhe o componente político e de segurança.

«Se a liderança não for unida, não for comprometida com uma visão de paz e democracia, não há nada que a comunidade internacional possa fazer», disse à agência Lusa em Díli o ex-Presidente timorense.

«Aqui (em Timor) houve sucesso porque houve uma parceria íntima entre a liderança timorense, que se voltou a unir, e a ONU. Outras situações como a República Centro Africana ou o Sudão do Sul, onde há o colapso total da liderança, o colapso do Estado, a força de paz não conseguiu resolver a situação», afirmou.


José Ramos-Horta, acompanhado do ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd, reuniu-se esta segunda-feira em Díli com o Presidente da República timorense, Taur Matan Ruak, a quem apresentaram a Comissão Independente sobre Multilateralismo.

Rudd, Ramos-Horta e os atuais chefes da diplomacia do Canadá e da Noruega presidem, em conjunto, à comissão que foi formalmente criada em setembro e que durante os próximos dois anos «vai conduzir uma análise de todo o sistema das Nações Unidas», incluindo as suas agências.

«Estou em Díli porque (...) quis pedir as opiniões do Presidente da República, do primeiro-ministro e de outros líderes em Timor-Leste sobre o futuro do sistema das Nações Unidas», afirmou Rudd em declarações à Lusa.

«A comunidade internacional tem muito a aprender com as experiências aqui em Díli que na última década teve experiência direta de manutenção de paz, de eleições supervisionadas pela ONU, e da ação das agências de desenvolvimento da ONU. Precisamos de ouvir sobre essas experiências e vamos pedir ao governo timorense que dê a sua opinião sobre o futuro do sistema», explicou.


Segundo Rudd trata-se de procurar que o sistema da ONU seja capaz de «responder aos desafios do século 21», que são «novos e em rápida mudança» e que, por isso «requerem esforços renovados de todos».

José Ramos explicou à Lusa que uma das principais lições de Timor-Leste é o facto de que o componente político e de segurança da presença internacional tem que ser acompanhado paralelamente por uma agenda de «desenvolvimento equitativo, redução da pobreza e criação de emprego».

«Tem que haver melhor coordenação entre o componente político e de segurança e instituições como Banco Mundial, a UE e os doadores, para que as coisas andem lado a lado», disse.


Ao mesmo tempo, considerou, tem que se trabalhar para fortalecer o Estado e as suas instituições, um processo que não pode ser acelerado.

«Não há corta-mato para resolver questões de construção de Estado. Tem que haver compromissos a longo prazo. Não há programas de seis meses ou um ano. É necessário um compromisso de uma ou duas décadas», concluiu.