Fugido há mais de 20 anos da Austrália, John Gott vivia com uma identidade falsa no Brasil, onde tinha uma nova vida, até com três filhos adotivos. Em janeiro, foi uma das vítimas do atropelamento que matou de imediato um bebé de oito meses e feriu mais 17 pessoas, causado por um condutor que alegou ter sofrido um ataque epilético.

Na passada quinta-feira, John Gott, de 63 anos morreu num hospital do Rio de Janeiro, após mais de quatro meses de coma, devido a falência múltipla dos seus órgãos. Então já se sabia que não se tratava do australiano Daniel Marcos Philips, professor particular de inglês, emigrado no Brasil.

Vítima desconhecida

A revelação da verdeira identidade do australiano só foi possível após ter sido vítima do atropelamento em Copacabana e consequentemente hospitalizado.

Quando as autoridades brasileiras identificaram a vítima como Daniel Marcos Philips - a identidade falsa que permitiu a Gott viver mais de 20 anos sem ser detetado no Brasil - contataram os serviços consulares australianos. Que não encontraram nenhuma emissão de passaporte para aquele nome.

Foi através das impressões digitais do paciente internado que se percebeu tratar-se de John Gott, um pedófilo condenado na Austrália, que fugira do país quando ficou em liberdade condicional.

A partir das digitais colhidas, foi feita uma comunicação com outras agências policiais mundo afora. Tivemos algumas respostas negativas, até que finalmente a Austrália confirmou que ele era um cidadão australiano", explicou à BBC Brasil, Carlos Henrique Oliveira de Souza, delegado da Polícia Federal brasileira e representante da Interpol no Rio de Janeiro.

Assim, há mais de 20 anos que Gott estava escondido no Brasil, sem que ninguém conhecesse a sua verdadeira identidade. Nem os que lhe eram mais próximos.

Ele foi uma pessoa fundamental no meu desenvolvimento e me ajudou muito, até completar 21 anos. Quem é que pode não estar afetado com este tipo de acusação? É uma coisa muito difícil para nós. É complicado", foram palavras de um seu filho adotivo no Brasil, Daniel, de seu nome, em abril, num programa da Rede Globo.

 

Condenação e fuga

John Gott era professor numa escola australiana e foi acusado e condenado na cidade de Darwin por 17 acusações de abuso de menores, envolvendo cinco crianças, em 1994

Em tribunal, declarou-se culpado. Foi condenado, cumpriu dois anos de prisão e saiu em liberdade condicional, com a condição de não contatar com menores de 16 anos.

Em 1996, saiu da prisão e seguia de autocarro para a cidade australiana de Victoria. Aproveitou uma paragem em Adelaide e desapareceu. Até janeiro, mais de 20 anos depois, quando foi vítima de um acidente na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil.