O homem que tentou assassinar João Paulo II, o turco Mehmet Ali Agca, depositou este sábado flores no túmulo daquele Papa, 31 anos depois de ter recebido a visita do antigo líder da igreja católica na prisão. O mais recente ato de contrição de Agca ocorreu exatamente 31 anos depois de João Paulo II o ter visitado na prisão, em Roma, para o perdoar pelo ataque a tiro, em 1981, que quase provocou a sua morte.

Agca, que tinha então 23 anos, alvejou o Papa duas vezes, a curta distância, na Praça de São Pedro, com uma bala a atravessar o abdómen e outra a passar junto ao coração.

O turco chegou inesperadamente a Roma, este sábado, e apresentou-se na polícia declarando a sua intenção de depositar flores no túmulo.

«Senti necessidade de fazer este gesto», disse, de acordo com meios de comunicação italianos citados pela agência France-Presse.


Sob uma discreta escolta policial, Agca foi filmado pela agência de notícias ADNKronos a dizer uma oração ao lado do túmulo, após ter depositado um ramo de rosas brancas.

«Milhares de agradecimentos, Santidade», afirmou, em italiano.

«Este é um milagre que continua. O mistério de Fátima continua. Vida longa a Jesus Cristo», acrescentou.


Agca pediu um encontro com o Papa Francisco quando o pontífice visitou a Turquia, no mês passado, o que foi recusado, tal como um pedido recente para uma audiência em Roma.

«Ele colocou flores no túmulo de João Paulo II. Penso que é suficiente», disse o porta-voz do Papa, Federico Lombardi, ao jornal italiano La Repubblica.

O motivo para o ataque de Agca, que passou quase três décadas em prisões em Itália e na Turquia e tem problemas mentais, permanece um mistério. Inicialmente, o homem testemunhou ter atuado sozinho, mas depois afirmou que os serviços secretos da Bulgária e da União Soviética haviam orquestrado a tentativa de homicídio do Papa polaco, devido às suas posições anti-comunistas.

A crença do Papa na intercessão de Nossa Senhora de Fátima na recuperação do atentado e a beatificação dos Pastorinhos marcam os 25 anos do pontificado de João Paulo II, que manifestou, por diversas vezes, a sua fé e devoção mariana.

Em junho de 2000, a revelação da ligação do atentado de 1981 à terceira parte do segredo de Fátima (escrita por Lúcia na década de 1940, aludindo ao que os Pastorinhos afirmaram ter ouvido de Nossa Senhora em julho de 1917) justifica, para os católicos, a razão desta cumplicidade entre o pontífice e o santuário de Fátima.

Nesse texto, escrito pela vidente e conhecida pelos papas sucessivos, é abordada a figura de um «bispo vestido de branco» entre os mártires da fé e que se deteve no limiar da morte, graças à «mão materna que desviou a trajetória da bala».

A identificação desta imagem com a do bispo caído por terra no atentado de 1981 foi feita pela hierarquia e pelos católicos, que consagraram João Paulo II como o Papa de Fátima.

O segredo liga os acontecimentos de Fátima à figura papal, o «bispo de branco» atingido pela bala de Ali Agca, em 13 de Maio de 1981, exatamente 64 anos depois de três Pastorinhos analfabetos na Cova da Iria terem relatado a aparição de Nossa Senhora.

Três viagens ao altar de Portugal selaram esse compromisso de um Papa que viveu intensamente a devoção mariana, a quem entregou a bala que quase o vitimou, e que se encontra incrustada na imagem de Nossa Senhora na Capelinha das Aparições.